segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Machado de Assis - Crisálidas - POLÔNIA




Machado de Assis - Crisálidas



POLÔNIA



E ao terceiro dia a alma deve voltar ao corpo, e a nação ressuscitará.
MICKIEWICZ
Como aurora de um dia desejado, Clarão suave o horizonte inunda. É talvez a manhã. A noite amarga Como que chega ao termo; e o sol dos livres, Cansado de te ouvir o inútil pranto, Alfim ressurge no dourado Oriente.
Eras livre, — tão livre como as águas Do teu formoso, celebrado rio;
A coroa dos tempos Cingia-te a cabeça veneranda; E a desvelada mãe, a irmã cuidosa,
A santa liberdade, Como junto de um berço precioso,À porta dos teus lares vigiava.
Eras feliz demais, demais formosa; A sanhuda cobiça dos tiranos Veio enlutar teus venturosos dias... Infeliz! a medrosa liberdade Em face dos canhões espavorida Aos reis abandonou teu chão sagrado;
Sobre ti, moribunda, Viste cair os duros opressores: Tal a gazela que percorre os campos,
Se o caçador a fere,
Cai convulsa de dor em mortais ânsias, E vê no extremo arranco Abater-se sobre ela
Escura nuvem de famintos corvos. Presa uma vez da ira dos tiranos, Os membros retalhou-te Dos senhores a esplêndida cobiça; Em proveito dos reis a terra livre Foi repartida, e os filhos teus — escravos — Viram descer um véu de luto à pátria E apagar-se na história a glória tua.
A glória, não! — É glória o cativeiro, Quando a cativa, como tu, não perde A aliança de Deus, a fé que alenta, E essa união universal e muda Que faz comuns a dor, o ódio, a esperança. Um dia, quando o cálice da amargura, Mártir, até às fezes esgotaste, Longo tremor correu as fibras tuas; Em teu ventre de mãe, a liberdade Parecia soltar esse vagido Que faz rever o céu no olhar materno; Teu coração estremeceu; teus lábios Trêmulos de ansiedade e de esperança, Buscaram aspirar a longos tragos A vida nova nas celestes auras.
Então surgiu Kosciusko; Pela mão do Senhor vinha tocado; A fé no coração, a espada em punho, E na ponta da espada a torva morte, Chamou aos campos a nação caída. De novo entre o direito e a força bruta Empenhou-se o duelo atroz e infausto
Que a triste humanidade Inda verá por séculos futuros. Foi longa a luta; os filhos dessa terra Ah! não pouparam nem valor nem sangue! A mãe via partir sem pranto os filhos, A irmã o irmão, a esposa o esposo,
E todas abençoavam A heróica legião que ia à conquista Do grande livramento.
Coube às hostes da força Da pugna o alto prêmio; A opressão jubilosa
Cantou essa vitória de ignomínia; E de novo, ó cativa, o véu de luto Correu sobre teu rosto!
Deus continha Em suas mãos o sol da liberdade, E inda não quis que nesse dia infausto Teu macerado corpo alumiasse. Resignada à dor e ao infortúnio, A mesma fé, o mesmo amor ardente
Davam-te a antiga força.
Triste viúva, o templo abriu-te as portas; Foi a hora dos hinos e das preces; Cantaste a Deus, tua alma consolada Nas asas da oração aos céus subia, Como a refugiar-se e a refazer-se
No seio do infinito. E quando a força do feroz cossacoÀ casa do Senhor ia buscar-te,
Era ainda rezando Que te arrastavas pelo chão da igreja. Pobre nação! — é longo o teu martírio; A tua dor pede vingança e termo; Muito hás vertido em lágrimas e sangue;É propícia esta hora. O sol dos livres Como que surge no dourado Oriente.
Não ama a liberdade Quem não chora contigo as dores tuas; E não pede, e não ama, e não deseja Tua ressurreição, finada heróica!














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