sábado, 22 de agosto de 2015

Machado de Assis - Crisálidas - STELLA



Machado de Assis - Crisálidas




STELLA




Já raro e mais escasso
A noite arrasta o manto, E verte o último pranto Por todo o vasto espaço.
Tíbio clarão já cora A tela do horizonte, E já de sobre o monte Vem debruçar-se a aurora.
À muda e torva irmã, Dormida de cansaço, Lá vem tomar o espaço A virgem da manhã.
Uma por uma, vão As pálidas estrelas, E vão, e vão com elas Teus sonhos, coração.
Mas tu, que o devaneio Inspiras do poeta, Não vês que a vaga inquieta Abre-te o úmido seio?
Vai. Radioso e ardente, Em breve o astro do dia, Rompendo a névoa fria, Virá do roxo oriente.
Dos íntimos sonhares Que a noite protegera, De tanto que eu vertera, Em lágrimas a pares,
Do amor silencioso, Místico, doce, puro, Dos sonhos de futuro, Da paz, do etéreo gozo,
De tudo nos desperta Luz de importuno dia; Do amor que tanto a enchia Minha alma está deserta.
A virgem da manhã Já todo o céu domina... Espero-te, divina, Espero-te, amanhã.










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