quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Machado de Assis - Crisálidas - ASPIRAÇÃO




Machado de Assis - Crisálidas



ASPIRAÇÃO



1862
A F. X. DE NOVAIS
Qu’aperçois-tu, mon âme? Au fond, n’estce-pas Dieu? Tu vais à lui...
V. DE LAPRADE
Sinto que há na minh’alma um vácuo imenso e fundo, E desta meia morte o frio olhar do mundo Não vê o que há de triste e de real em mim; Muita vez, ó poeta, a dor é casta assim; Refolha-se, não diz no rosto o que ela é, E nem que o revelasse, o vulgo não põe fé Nas tristes comoções da verde mocidade, E responde sorrindo à cruel realidade.
Não assim tu, ó alma, ó coração amigo; Nu, como a consciência, abro-me aqui contigo; Tu que corres, como eu, na vereda fatal Em busca do mesmo alvo e do mesmo ideal. Deixemos que ela ria, a turba ignara e vã; Nossas almas a sós, como irmão junto a irmã, Em santa comunhão, sem cárcere, nem véus, Conversarão no espaço e mais perto de Deus.
Deus quando abre ao poeta as portas desta vida Não lhe depara o gozo e a glória apetecida;
Traja de luto a folha em que lhe deixa escritas A suprema saudade e as dores infinitas. Alma errante e perdida em um fatal desterro, Neste primeiro e fundo e triste limbo do erro, Chora a pátria celeste, o foco, o cetro, a luz, Onde o anjo da morte, ou da vida, o conduz, No dia festival do grande livramento; Antes disso, a tristeza, o sombrio tormento, O torvo azar, e mais, a torva solidão, Embaciam-lhe n’alma o espelho da ilusão.
O poeta chora e vê perderem-se esfolhadas Da verde primavera as flores tão cuidadas; Rasga, como Jesus, no caminho das dores, Os lassos pés; o sangue umedece-lhe as flores Mortas ali, — e a fé, a fé mãe, a fé santa, Ao vento impuro e mau que as ilusões quebranta, Na alma que ali se vai muitas vezes vacila...
Oh! feliz o que pode, alma alegre e tranqüila, A esperança vivaz e as ilusões floridas, Atravessar cantando as longas avenidas Que levam do presente ao secreto porvir! Feliz esse! Esse pode amar, gozar, sentir, Viver enfim! A vida é o amor, é a paz, É a doce ilusão e a esperança vivaz; Não esta do poeta, esta que Deus nos pôs Nem como inútil fardo, antes como um algoz.
O poeta busca sempre o almejado ideal... Triste e funesto afã! tentativa fatal! Nesta sede de luz, nesta fome de amor, O poeta corre à estrela, à brisa, ao mar, à flor; Quer ver-lhe a luz na luz da estrela peregrina, Quer–lhe o cheiro aspirar na rosa da campina, Na brisa o doce alento, a voz na voz do mar, Ó inútil esforço! Ó ímprobo lutar! Em vez da luz, do aroma, ou do alento ou da voz, Acha-se o nada, o torvo, o impassível algoz!
Onde te escondes, pois, ideal da ventura? Em que canto da terra, em que funda espessura Foste esconder, ó fada, o teu esquivo lar? Dos homens esquecido, em ermo recatado, Que voz do coração, que lágrima, que brado Do sono em que ora estás te virá despertar?
A esta sede de amar só Deus conhece a fonte? Jorra ele ainda além deste fundo horizonte Que a mente não calcula, e onde se perde o olhar? Que asas nos deste, ó Deus, para transpor o espaço? Ao ermo do desterro inda nos prende um laço: Onde encontrar a mão que o venha desatar?
Creio que só em ti há essa luz secreta, Essa estrela polar dos sonhos do poeta, Esse alvo, esse termo, esse mago ideal;
Fonte de todo o ser e fonte da verdade, Nós vamos para ti, e em tua imensidade É que havemos de ter o repouso final.
É triste quando a vida, erma, como esta, passa, E quando nos impele o sopro da desgraça Longe de ti, ó Deus, e distante do amor! Mas guardemos, poeta, a melhor esperança: Sucederá a glória à salutar provança: O que a terra não deu, dar-nos-á o Senhor!





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