domingo, 6 de setembro de 2015

Machado de Assis - Crisálidas - A CARIDADE


Machado de Assis - Crisálidas


A CARIDADE




1861
Ela tinha no rosto uma expressão tão calma Como o sono inocente e primeiro de uma alma Donde não se afastou ainda o olhar de Deus; Uma serena graça, uma graça dos céus, Era-lhe o casto, o brando, o delicado andar, E nas asas da brisa iam-lhe a ondear Sobre o gracioso colo as delicadas tranças.
Levava pelas mãos duas gentis crianças.
Ia caminho. A um lado ouve magoado pranto. Parou. E na ansiedade ainda o mesmo encanto Descia-lhe às feições. Procurou. Na calçada À chuva, ao ar, ao sol, despida, abandonada A infância lacrimosa, a infância desvalida,
Pedia leito e pão, amparo, amor, guarida.
E tu, ó caridade, ó virgem do Senhor, No amoroso seio as crianças tomaste, E entre beijos — só teus — o pranto lhes secaste Dando-lhes pão, guarida, amparo, leito e amor.








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