sábado, 19 de setembro de 2015

Machado de Assis - Crisálidas - EMBIRRAÇÃO



Machado de Assis - Crisálidas


EMBIRRAÇÃO




(A Machado de Assis)
A balda alexandrina é poço imenso e fundo, Onde poetas mil, flagelo deste mundo, Patinham sem parar, chamando lá por mim. Não morrerão, se um verso, estiradinho assim, Da beira for do poço, extenso como ele é, Levar-lhes grosso anzol; então eu tenho fé Que volte um afogado, à luz da mocidade, A ver no mundo seco a seca realidade.
Por eles, e por mim, receio, caro amigo; Permite o desabafo aqui, a sós contigo, Que à moda fazer guerra, eu sei quanto é fatal; Nem vence o positivo o frívolo ideal; Despótica em seu mando, é sempre fátua e vã, E até da vã loucura a moda é prima-irmã: Mas quando venha o senso erguer-lhe os densos véus, Do verso alexandrino há de livrar-nos Deus.
Deus quando abre ao poeta as portas desta vida, Não lhe depara o gozo e a glória apetecida; E o triste, se morreu, deixando mal escritas Em verso alexandrino histórias infinitas, Vai ter lá noutra vida insípido desterro, Se Deus, por compaixão, não dá perdão ao erro; Fechado em quarto escuro, à noite não tem luz, E se é cá do meu gosto o guarda que o conduz, Debalde, imerso em pranto, implora o livramento;
Não torna a ser, aqui, das Musas o tormento; Castigo alexandrino, eterna solidão, Terá lá no desterro, em prêmio da ilusão; Verá queimar, à noite, as rosas esfolhadas, Que a moda lhe ofertara, e trouxe tão cuidadas, E ao pé do fogo intenso, ardendo em cruas dores, Verá que versos tais são galhos, não dão flores; Que, lendo-os a pedido, a criatura santa, A paciência lhe foge, a fé se lhe quebranta,
Se vai dum verso ao fim; depois... treme... vacila... Dormindo, cai no chão; mais tarde, já tranqüila, Sonha com verso-verso, e as ilusões floridas, Risonhas, vem mostrar-lhe as largas avenidas Que o longo verso-prosa oculta, do porvir! Sonhando, ao menos, pode amar, gozar, sentir, Que um sono alexandrino a deixa ali em paz, Dormir... dormir... dormir... erguer-se, enfim, vivaz, Bradando: “Clorofórmio! O gênio que te pôs. A palma cede ao metro esguio, teu algoz!”
E aspiras, vate, assim, da glória ao ideal? Triste e funesto afã!... tentativa fatal!
Nesta sede de luz, nesta fome de amor, O poeta corre a estrela, à brisa, ao mar, à flor; Quer ver-lhe a luz na luz da estrela peregrina, Quer-lhe o aroma sentir na rosa da campina, Na brisa o doce alento, a voz na voz do mar; Ó inútil esforço! Ó é ímprobo luta! Em vez da luz, do aroma, ou do alento, ou da voz, O verso alexandrino, o impassível algoz!...
Não cantas a tristeza, e menos a ventura; Que em vez do sabiá gemendo na espessura, Imitarás, no canto, o grilo atrás do lar; Mas desse estreito asilo, escuro e recatado, Alegre hás de fugir, que erguendo altivo brado, A lírica harmonia há de ir-te despertar!
Verás de novo aberta a copiosa fonte! Da poesia verás tão lúcido o horizonte, Que a mente não calcula, e onde se perde o olhar, Que nas asas do gênio, a voar pelo espaço, Da perna sacudindo o alexandrino laço, Hás de a mão bendizer que o soube desatar.
Do precipício foge, e segue a luz secreta, Essa estrela polar dos sonhos do poeta; Mas, noutro verso, amigo, onde ao mago ideal A música se ligue, o senso e a verdade;
— Num destes vai-se, a ler, da vida a imensidade, Da sílaba primeira à sílaba final!
Meu Deus! Esta existência é transitória e passa; Se fraco fui aqui, pecando por desgraça; Se já não tenho jus ao vosso puro amor; Se nem da salvação nutrir posso a esperança,
Quero em chamas arder, sofrer toda a provança:
— Ler verso alexandrino... Oh! isso não Senhor!
F.X. de Novaes











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