domingo, 13 de setembro de 2015

Machado de Assis - Crisálidas - MARIA DUPLESSIS




Machado de Assis - Crisálidas


MARIA DUPLESSIS


(A. Dumas Filho)
1859
Fiz promessa, dizendo-te que um dia Eu iria pedir-te o meu perdão; Era dever ir abraçar primeiro A minha doce e última afeição.
E quando ia apagar tanta saudade Encontrei já fechada a tua porta; Soube que uma recente sepultura Muda fechava a tua fronte morta.
Soube que, após um longo sofrimento, Agravara-se a tua enfermidade; Viva esperança que eu nutria ainda Despedaçou cruel fatalidade.
Vi, apertado de fatais lembranças, A escada que eu subira tão contente; E as paredes, herdeiras do passado, Que vêm falar dos mortos ao vivente.
Subi e abri com lágrimas a porta Que ambos abrimos a chorar um dia; E evoquei o fantasma da ventura Que outrora um céu de rosas nos abria
Sentei-me à mesa, onde contigo outrora Em noites belas de verão ceava; Desses amores plácidos e amenos Tudo ao meu triste coração falava.
Fui ao teu camarim, e vi-o ainda Brilhar com o esplendor das mesmas cores; E pousei meu olhar nas porcelanas Onde morriam inda algumas flores...
Vi aberto o piano em que tocavas; Tua morte o deixou mudo e vazio, Como deixa o arbusto sem folhagem, Passando pelo vale, o ardente estio.
Tornei a ver o teu sombrio quarto Onde estava a saudade de outros dias... Um raio iluminava o leito ao fundo Onde, rosa de amor, já não dormias.
As cortinas abri que te amparavam Da luz mortiça da manhã, querida, Para que um raio depusesse um toque De prazer em tua fronte adormecida.
Era ali que, depois da meia-noite, Tanto amor nós sonhávamos outrora; E onde até o raiar da madrugada Ouvíamos bater hora por hora!
Então olhavas tu a chama ativa Correr ali no lar, como a serpente; É que o sono fugia de teus olhos Onde já te queimava a febre ardente.
Lembras-te agora, nesse mundo novo, Dos gozos desta vida em que passaste? Ouves passar, no túmulo em que dormes, A turba dos festins que acompanhaste?
A insônia, como um verme em flor que murcha,
De contínuo essas faces desbotava; E pronta para amores e banquetes Conviva e cortesã te preparava.
Hoje, Maria, entre virentes flores, Dormes em doce e plácido abandono; A tua alma acordou mais bela e pura, E Deus pagou-te o retardado sono.
Pobre mulher! em tua última hora Só um homem tiveste à cabeceira; E apenas dous amigos dos de outrora Foram levar-te à cama derradeira.




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