quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Machado de Assis - Crisálidas - MONTE ALVERNE


Machado de Assis - Crisálidas


MONTE ALVERNE




1858 Ao padre-mestre A. J. da Silveira Sarmento
Morreu! — Assim baqueia a estátua erguida
No alto do pedestal; Assim o cedro das florestas virgens Cai pelo embate do corcel dos ventos
Na hora do temporal...
Morreu! — Fechou-se o pórtico sublime
De um paço secular; Da mocidade a romaria augusta Amanhã ante as pálidas ruínas
Há de vir meditar!
Tinha na fronte de profeta ungido
A inspiração do céu. Pela escada do púlpito moderno Subiu outrora festival mancebo
E Bossuet desceu!
Ah! que perdeste num só homem, claustro!
Era uma augusta voz; Quando essa boca divinal se abria, Mais viva a crença dissipava n’alma
Uma dúvida atroz!
Era tempo? — a argila se alquebrava
Num áspero crisol; Corrido o véu pelos cansados olhos Nem via o sol que lhe contava os dias,
Ele — fecundo sol!
A doença o prendia ao leito infausto Da derradeira dor; A terra reclamava o que era terra, E o gelo dos invernos coroava A fronte do orador.
Mas lá dentro o espírito fervente
Era como um fanal; Não, não dormia nesse régio crânio A alma gentil do Cícero dos púlpitos,
— Cuidadosa Vestal!
Era tempo! — O romeiro do deserto
Pára um dia também; E ante a cidade que almejou por anos Desdobra um riso nos doridos lábios,
Descansa e passa além!
Caíste! — Mas foi só a argila, o vaso,
Que o tempo derrubou; Não todo à essa foi teu vulto olímpico; Como deixa o cometa uma áurea cauda,
A lembrança ficou!
O que hoje resta era a terrena púrpura
Daquele gênio-rei; A alma voou ao seio do infinito, Voltou à pátria das divinas glórias
O apóstolo da lei.
Pátria, curva o joelho ante esses restos
Do orador imortal! Por esses lábios não falava um homem. Era uma geração, um século inteiro,
Grande, monumental!
Morreu! — Assim baqueia a estátua erguida
No alto do pedestal; Assim o cedro das florestas virgens Cai pelo embate do corcel dos ventos
Na hora do temporal!





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