segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Crisálidas - Poesia - Machado

       



MUSA CONSOLATRIX


Que a mão do tempo e o hálito dos homens
Murchem a flor das ilusões da vida,
Musa consoladora, É no teu seio amigo e sossegado
Que o poeta respira o suave sono.
Não há, não há contigo,
Nem dor aguda, nem sombrios ermos;
Da tua voz os namorados cantos
Enchem, povoam tudo
De íntima paz, de vida e de conforto.
Ante esta voz que as dores adormece,
E muda o agudo espinho em flor cheirosa,
Que vales tu, desilusão dos homens?
Tu que podes, ó tempo?
A alma triste do poeta sobrenada
À enchente das angústias,
E, afrontando o rugido da tormenta,
Passa cantando, alcíone divina.
Musa consoladora,
Quando da minha fronte de mancebo
A última ilusão cair, bem como
Folha amarela e seca
Que ao chão atira a viração do outono,
Ah! no teu seio amigo
Acolhe-me, — e haverá minha alma aflita,
Em vez de algumas ilusões que teve,
A paz, o último bem, último e puro!



VISIO


Eras pálida. E os cabelos,
Aéreos, soltos novelos
Sobre as espáduas caíam...
Os olhos meio cerrados
De volúpia e de ternura
Entre lágrimas luziam...
E os braços entrelaçados,
Como cingindo a ventura,
Ao teu seio me cingiam...

Depois, naquele delírio,
Suave, doce martírio
De pouquíssimos instantes
Os teus lábios sequiosos,
Frios, trêmulos, trocavam
Os beijos mais delirantes,
E no supremo dos gozos
Ante os anjos se casavam
Nossas almas palpitantes...

Depois... depois a verdade,
A fria realidade,
A solidão, a tristeza;
Daquele sonho desperto,
Olhei... silêncio de morte
Respirava a natureza, —
Era a terra, era o deserto,
Fora-se o doce transporte,
Restava a fria certeza.

Desfizera-se a mentira:
Tudo aos meus olhos fugira,
Tu e o teu olhar ardente,
Lábios trêmulos e frios,
O abraço longo e apertado,
O beijo doce e veemente;
Restavam meus desvarios,
E o incessante cuidado,
E a fantasia doente.

E agora te vejo. E fria
Tão outra estás da que eu via
Naquele sonho encantado!
És outra, calma, discreta,
Com o olhar indiferente,
Tão outro do olhar sonhado,
Que a minha alma de poeta
Não se vê a imagem presente
Foi a visão do passado.

Foi, sim, mas visão apenas;
Daquelas visões amenas
Que à mente dos infelizes
Descem vivas e animadas,
Cheias de luz e esperança
E de celestes matizes:
Mas, apenas dissipadas,
Fica uma leve lembrança,
Não ficam outras raízes.

Inda assim, embora sonho,
Mas, sonho doce e risonho,
Desse-me Deus que fingida
Tivesse aquela ventura
Noite por noite, hora a hora,
No que me resta de vida,
Que, já livre da amargura,
Alma, que em dores me chora,
Chorara de agradecida!



QUINZE ANOS


Oh! la fleur de l'Eden, pourquoi l'as-tu
fannée,
Insouciant enfant, belle Eve aux blonds
cheveux!

ALFRED DE MUSSET

Era uma pobre criança...
— Pobre criança, se o eras! —
Entre as quinze primaveras
De sua vida cansada
Nem uma flor de esperança
Abria a medo. Eram rosas
Que a doida da esperdiçada
Tão festivas, tão formosas,
Desfolhava pelo chão.
— Pobre criança, se o eras! —
Os carinhos mal gozados
Eram por todos comprados,
Que os afetos de sua alma
Havia-os levado à feira,
Onde vendera sem pena
Até a ilusão primeira
Do seu doido coração!

Pouco antes, a candura,
Coas brancas asas abertas,
Em um berço de ventura
A criança acalentava
Na santa paz do Senhor;
Para acordá-la era cedo,
E a pobre ainda dormia
Naquele mudo segredo

Que só abre o seio um dia
Para dar entrada a amor.

Mas, por teu mal, acordaste!
Junto do berço passou-te
A festiva melodia
Da sedução... e acordou-te!
Colhendo as límpidas asas,
O anjo que te velava
Nas mãos trêmulas e frias
Fechou o rosto... chorava!

Tu, na sede dos amores,
Colheste todas as flores
Que nas orlas do caminho
Foste encontrando ao passar;
Por elas, um só espinho
Não te feriu... vais andando...
Corre, criança, até quando
Fores forçada a parar!

Então, desflorada a alma
De tanta ilusão, perdida
Aquela primeira calma
Do teu sono de pureza;
Esfolhadas, uma a uma,
Essas rosas de beleza
Que se esvaem como a escuma
Que a vaga cospe na praia
E que por si se desfaz;

Então, quando nos teus olhos
Uma lágrima buscares,
E secos, secos de febre,
Uma só não encontrares
Das que em meio das angústias
São um consolo e uma paz;

Então, quando o frio 'spectro
Do abandono e da penúria
Vier aos teus sofrimentos
Juntar a última injúria:
E que não vires ao lado
Um rosto, um olhar amigo
Daqueles que são agora
Os desvelados contigo;

Criança, verás o engano
E o erro dos sonhos teus;
E dirás, — então já tarde, —
Que por tais gozos não vale
Deixar os braços de Deus.



STELLA



Já raro e mais escasso
A noite arrasta o manto,
E verte o último pranto
Por todo o vasto espaço.

Tíbio clarão já cora
A tela do horizonte,
E já de sobre o monte
Vem debruçar-se a aurora.

À muda e torva irmã,
Dormida de cansaço,
Lá vem tomar o espaço
A virgem da manhã.

Uma por uma, vão
As pálidas estrelas,
E vão, e vão com elas
Teus sonhos, coração.

Mas tu, que o devaneio
Inspiras do poeta,
Não vês que a vaga inquieta
Abre-te o úmido seio?

Vai. Radioso e ardente,
Em breve o astro do dia,
Rompendo a névoa fria,
Virá do roxo oriente.

Dos íntimos sonhares
Que a noite protegera,
De tanto que eu vertera,
Em lágrimas a pares,

Do amor silencioso,
Místico, doce, puro,
Dos sonhos de futuro,
Da paz, do etéreo gozo,

De tudo nos desperta
Luz de importuno dia;
Do amor que tanto a enchia
Minha alma está deserta.

A virgem da manhã
Já todo o céu domina...
Espero-te, divina,
Espero-te, amanhã.



EPITÁFIO DO MÉXICO


Dobra o joelho: — é um túmulo. Embaixo amortalhado Jaz o cadáver tépido De um povo aniquilado; A prece melancólica

Reza-lhe em torno à cruz.

Ante o universo atônito
Abriu-se a estranha liça,
Travou-se a luta férvida
Da força e da justiça;
Contra a justiça, ó século,
Venceu a espada e o obus.

Venceu a força indômita;
Mas a infeliz vencida
A mágoa, a dor, o ódio,
Na face envilecida
Cuspiu-lhe. E a eterna mácula
Seus louros murchará.

E quando a voz fatídica
Da santa liberdade
Vier em dias prósperos
Clamar à humanidade,
Então revivo o México
Da campa surgirá.



POLÔNIA


E ao terceiro dia a alma deve voltar ao corpo, e a nação ressuscitará.

MICKIEWICZ

Como aurora de um dia desejado,
Clarão suave o horizonte inunda.
É talvez a manhã. A noite amarga
Como que chega ao termo; e o sol dos livres,
Cansado de te ouvir o inútil pranto,
Alfim ressurge no dourado Oriente.

Eras livre, — tão livre como as águas
Do teu formoso, celebrado rio;

A coroa dos tempos Cingia-te a cabeça veneranda; E a desvelada mãe, a irmã cuidosa,
A santa liberdade, Como junto de um berço precioso,À porta dos teus lares vigiava.

Eras feliz demais, demais formosa;
A sanhuda cobiça dos tiranos
Veio enlutar teus venturosos dias...
Infeliz! a medrosa liberdade
Em face dos canhões espavorida
Aos reis abandonou teu chão sagrado;

Sobre ti, moribunda, Viste cair os duros opressores: Tal a gazela que percorre os campos,
Se o caçador a fere,
Cai convulsa de dor em mortais ânsias, E vê no extremo arranco Abater-se sobre ela

Escura nuvem de famintos corvos.
Presa uma vez da ira dos tiranos,
Os membros retalhou-te
Dos senhores a esplêndida cobiça;
Em proveito dos reis a terra livre
Foi repartida, e os filhos teus — escravos —
Viram descer um véu de luto à pátria
E apagar-se na história a glória tua.

A glória, não! — É glória o cativeiro,
Quando a cativa, como tu, não perde
A aliança de Deus, a fé que alenta,
E essa união universal e muda
Que faz comuns a dor, o ódio, a esperança.
Um dia, quando o cálice da amargura,
Mártir, até às fezes esgotaste,
Longo tremor correu as fibras tuas;
Em teu ventre de mãe, a liberdade
Parecia soltar esse vagido
Que faz rever o céu no olhar materno;
Teu coração estremeceu; teus lábios
Trêmulos de ansiedade e de esperança,
Buscaram aspirar a longos tragos
A vida nova nas celestes auras.

Então surgiu Kosciusko; Pela mão do Senhor vinha tocado; A fé no coração, a espada em punho, E na ponta da espada a torva morte, Chamou aos campos a nação caída. De novo entre o direito e a força bruta Empenhou-se o duelo atroz e infausto
Que a triste humanidade Inda verá por séculos futuros. Foi longa a luta; os filhos dessa terra Ah! não pouparam nem valor nem sangue! A mãe via partir sem pranto os filhos, A irmã o irmão, a esposa o esposo,
E todas abençoavam A heróica legião que ia à conquista Do grande livramento.

Coube às hostes da força
Da pugna o alto prêmio;
A opressão jubilosa

Cantou essa vitória de ignomínia; E de novo, ó cativa, o véu de luto Correu sobre teu rosto!
Deus continha Em suas mãos o sol da liberdade, E inda não quis que nesse dia infausto Teu macerado corpo alumiasse. Resignada à dor e ao infortúnio, A mesma fé, o mesmo amor ardente
Davam-te a antiga força.
Triste viúva, o templo abriu-te as portas; Foi a hora dos hinos e das preces; Cantaste a Deus, tua alma consolada Nas asas da oração aos céus subia, Como a refugiar-se e a refazer-se
No seio do infinito. E quando a força do feroz cossacoÀ casa do Senhor ia buscar-te,
Era ainda rezando Que te arrastavas pelo chão da igreja. Pobre nação! — é longo o teu martírio; A tua dor pede vingança e termo; Muito hás vertido em lágrimas e sangue;É propícia esta hora. O sol dos livres Como que surge no dourado Oriente.
Não ama a liberdade Quem não chora contigo as dores tuas; E não pede, e não ama, e não deseja Tua ressurreição, finada heróica!




ERRO



Erro é teu. Amei-te um dia
Com esse amor passageiro
Que nasce na fantasia
E não chega ao coração;
Não foi amor, foi apenas
Uma ligeira impressão;
Um querer indiferente,
Em tua presença, vivo,
Morto, se estavas ausente,
E se ora me vês esquivo,
Se, como outrora, não vês
Meus incensos de poeta
Ir eu queimar a teus pés,
É que, — como obra de um dia,
Passou-me essa fantasia.

Para eu amar-te devias
Outra ser e não como eras.
Tuas frívolas quimeras,
Teu vão amor de ti mesma,
Essa pêndula gelada
Que chamavas coração,
Eram bem fracos liames
Para que a alma enamorada
Me conseguissem prender;
Foram baldados tentames,
Saiu contra ti o azar,
E embora pouca, perdeste
A glória de me arrastar
Ao teu carro... Vãs quimeras!
Para eu amar-te devias
Outra ser e não como eras...



ELEGIA


A bondade choremos inocente
Cortada em flor que, pela mão da morte,
Nos foi arrebatada dentre a gente.

CAMÕES — Elegias

Se, como outrora, nas florestas virgens, Nos fosse dado — o esquife que te encerra Erguer a um galho de árvore frondosa Certo não tinhas um melhor jazigo Do que ali, ao ar livre, entre os perfumes Da florente estação, imagem viva De teus cortados dias, e mais perto

Do clarão das estrelas.

Sobre teus pobres e adorados restos,
Piedosa, a noite ali derramaria
De seus negros cabelos puro orvalho
À beira do teu último jazigo
Os alados cantores da floresta
Iriam sempre modular seus cantos;
Nem letra, nem lavor de emblema humano,
Relembraria a mocidade morta;
Bastava só que ao coração materno,
Ao do esposo, ao dos teus, ao dos amigos,
Um aperto, uma dor, um pranto oculto,
Dissesse: — Dorme aqui, perto dos anjos,
A cinza de quem foi gentil transunto

De virtudes e graças.

Mal havia transposto da existência Os dourados umbrais; a vida agora Sorria-lhe toucada dessas flores Que o amor, que o talento e a mocidade

À uma repartiam.

Tudo lhe era presságio alegre e doce;
Uma nuvem sequer não sombreava,
Em sua fronte, o íris da esperança;
Era, enfim, entre os seus a cópia viva
Dessa ventura que os mortais almejam,
E que raro a fortuna, avessa ao homem.

Deixa gozar na terra.
Mas eis que o anjo pálido da morte A pressentiu feliz e bela e pura, E, abandonando a região do olvido, Desceu à terra, e sob a asa negra A fronte lhe escondeu; o frágil corpo Não pôde resistir; a noite eterna
Veio fechar seus olhos; Enquanto a alma, abrindo As asas rutilantes pelo espaço.
Foi engolfar-se em luz, perpetuamente, Tal a assustada pomba, que na árvore O ninho fabricou, — se a mão do homem Ou a impulsão do vento um dia abate
No seio do infinito; O recatado asilo, — abrindo o vôo,
Deixa os inúteis restos E, atravessando airosa os leves ares, Vai buscar noutra parte outra guarida.
Hoje, do que era inda lembrança resta,
E que lembrança! Os olhos fatigados
Parecem ver passar a sombra dela;
O atento ouvido inda lhe escuta os passos;
E as teclas do piano, em que seus dedos
Tanta harmonia despertavam antes,
Como que soltam essas doces notas
Que outrora ao seu contato respondiam.

Ah! pesava-lhe este ar da terra impura,
Faltava-lhe esse alento de outra esfera,
Onde, noiva dos anjos, a esperavam

As palmas da virtude. Mas, quando assim a flor da mocidade Toda se esfolha sobre o chão da morte, Senhor, em que firmar a segurança Das venturas da terra? Tudo morre; À sentença fatal nada se esquiva, O que é fruto e o que é flor. O homem cego Cuida haver levantado em chão de bronze Um edifício resistente aos tempos, Mas lá vem dia, em que, a um leve sopro,
O castelo se abate, Onde, doce ilusão, fechado havias Tudo o que de melhor a alma do homem
Encerra de esperanças.
Dorme, dorme tranqüila Em teu último asilo; e se eu não pude Ir espargir também algumas flores Sobre a lájea da tua sepultura; Se não pude, — eu que há pouco te saudava Em teu erguer, estrela, — os tristes olhos Banhar nos melancólicos fulgores, Na triste luz do teu recente ocaso, Deixo-te ao menos nesses pobres versos Um penhor de saudade, e lá na esfera Aonde aprouve ao Senhor chamar-te cedo, Possas tu ler nas pálidas estrofes
A tristeza do amigo.

1861




SINHÁ



O teu nome é como o óleo derramado.

CÂNTICO DOS CÂNTICOS

Nem o perfume que expira A flor, pela tarde amena, Nem a nota que suspira Canto de saudade e pena Nas brandas cordas da lira; Nem o murmúrio da veia Que abriu sulco pelo chão Entre margens de alva areia, Onde se mira e recreia Rosa fechada em botão;
Nem o arrulho enternecido Das pombas nem do arvoredo Esse amoroso arruído Quando escuta algum segredo Pela brisa repetido; Nem esta saudade pura Do canto do sabiá Escondido na espessura, Nada respira doçura Como o teu nome, Sinhá!



HORAS VIVAS



Noite; abrem-se as flores... Que esplendores! Cíntia sonha amores Pelo céu. Tênues as neblinas Às campinas Descem das colinas, Como um véu.

Mãos em mãos travadas Animadas,

Vão aquelas fadas
Pelo ar;
Soltos os cabelos,

Em novelos, Puros, louros, belos, A voar.

— Homem, nos teus dias Que agonias, Sonhos, utopias, Ambições; Vivas e fagueiras, As primeiras,
Como as derradeiras Ilusões!
— Quantas, quantas vidas Vão perdidas, Pombas malferidas Pelo mal! Anos após anos, Tão insanos,
Vêm os desenganos Afinal.
— Dorme: se os pesares Repousares. Vês? — por estes ares Vamos rir; Mortas, não; festivas, E lascivas,
Somos — horas vivas De dormir. —




VERSOS A CORINA


Tacendo il nome di questa gentilíssima
DANTE
Tu nasceste de um beijo e de um olhar. O beijo Numa hora de amor, de ternura e desejo, Uniu a terra e o céu. O olhar foi do Senhor, Olhar de vida, olhar de graça, olhar de amor; Depois, depois vestindo a forma peregrina, Aos meus olhos mortais, surgiste-me, Corina!
De um júbilo divino os cantos entoava A natureza mãe, e tudo palpitava, A flor aberta e fresca, a pedra bronca e rude, De uma vida melhor e nova juventude.
Minh'alma adivinhou a origem do teu ser; Quis cantar e sentir; quis amar e viver A luz que de ti vinha, ardente, viva, pura, Palpitou, reviveu a pobre criatura; Do amor grande elevado abriram-se-lhe as fontes; Fulgiram novos sóis, rasgaram-se horizontes; Surgiu, abrindo em flor, uma nova região; Era o dia marcado à minha redenção. Era assim que eu sonhava a mulher. Era assim: Corpo de fascinar, alma de querubim; Era assim: fronte altiva e gesto soberano, Um porte de rainha a um tempo meigo e ufano, Em olhos senhoris uma luz tão serena, E grave como Juno, e belo como Helena! Era assim, a mulher que extasia e domina, A mulher que reúne a terra e o céu: Corina!
Neste fundo sentir, nesta fascinação, Que pede do poeta o amante coração? Viver como nasceste, ó beleza, ó primor, De uma fusão do ser, de uma efusão do amor.
Viver, — fundir a existência Em um ósculo de amor, Fazer de ambas — uma essência, Apagar outras lembranças, Perder outras ilusões, E ter por sonho melhor O sonho das esperanças De que a única ventura Não reside em outra vida, Não vem de outra criatura; Confundir olhos nos olhos, Unir um seio a outro seio, Derramar as mesmas lágrimas E tremer do mesmo enleio, Ter o mesmo coração, Viver um do outro viver... Tal era a minha ambição. Donde viria a ventura Desta vida? Em que jardim Colheria esta flor pura? Em que solitária fonte Esta água iria beber'? Em que incendido horizonte Podiam meus olhos ver Tão meiga, tão viva estrela, Abrir-se e resplandecer? Só em ti: — em ti que és bela, Em ti que a paixão respiras, Em ti cujo olhar se embebe Na ilusão de que deliras, Em ti, que um ósculo de Hebe Teve a singular virtude De encher, de animar teus dias, De vida e de juventude...
Amemos! diz a flor à brisa peregrina, Amemos! diz a brisa, arfando em torno à flor; Cantemos esta lei e vivamos, Corina, De uma fusão do ser, de uma efusão do amor.
A minha alma, talvez, não é tão pura, Como era pura nos primeiros dias; Eu sei; tive choradas agonias De que conservo alguma nódoa escura,
Talvez. Apenas à manhã da vida Abri meus olhos virgens e minha alma. Nunca mais respirei a paz e a calma, E me perdi na porfiosa lida.
Não sei que fogo interno me impelia À conquista da luz, do amor, do gozo, Não sei que movimento imperioso De um desusado ardor minha alma enchia.
Corri de campo em campo e plaga em plaga, (Tanta ansiedade o coração encerra!) A ver o lírio que brotasse a terra, A ver a escuma que cuspisse — a vaga.
Mas, no areal da praia, no horto agreste, Tudo aos meus olhos ávidos fugia... Desci ao chão do vale que se abria, Subi ao cume da montanha alpestre.
Nada! Volvi o olhar ao céu. Perdi-me Em meus sonhos de moço e de poeta; E contemplei, nesta ambição inquieta, Da muda noite a página sublime.
Tomei nas mãos a cítara saudosa E soltei entre lágrimas um canto. A terra brava recebeu meu pranto E o eco repetiu-me a voz chorosa.
Foi em vão. Como um lânguido suspiro, A voz se me calou, e do ínvio monte Olhei ainda as linhas do horizonte, Como se olhasse o último retiro.
Nuvem negra e veloz corria solta, O anjo da tempestade anunciando; Vi ao longe as alcíones cantando Doidas correndo à flor da água revolta.
Desiludido, exausto, ermo, perdido, Busquei a triste estância do abandono, E esperei, aguardando o último sono, Volver à terra, de que foi nascido.
— “Ó Cibele fecunda, é no remanso Do teu seio que vive a criatura. Chamem-te outros morada triste e escura, Chamo-te glória, chamo-te descanso!”
Assim falei. E murmurando aos ventos Uma blasfêmia atroz — estreito abraço Homem e terra uniu, e em longo espaço Aos ecos repeti meus vãos lamentos.
Mas, tu passaste... Houve um grito Dentro de mim. Aos meus olhos Visão de amor infinito, Visão de perpétuo gozo Perpassava e me atraía, Como um sonho voluptuoso
De sequiosa fantasia. Ergui-me logo do chão, E pousei meus olhos fundos Em teus olhos soberanos, Ardentes, vivos, profundos, Como os olhos da beleza Que das escumas nasceu... Eras tu, maga visão, Eras tu o ideal sonhado Que em toda a parte busquei, E por quem houvera dado A vida que fatiguei; Por quem verti tanto pranto, Por quem nos longos espinhos Minhas mãos, meus pés sangrei!
Mas se minh'alma, acaso, é menos pura Do que era pura nos primeiros dias, Por que não soube em tantas agonias Abençoar a minha desventura;
Se a blasfêmia os meus lábios poluíra, Quando, depois de tempo e do cansaço, Beijei a terra no mortal abraço E espedacei desanimado a lira;
Podes, visão formosa e peregrina, No amor profundo, na existência calma, Desse passado resgatar minh'alma E levantar-me aos olhos teus, — Corina!
III
Quando voarem minhas esperanças Como um bando de pombas fugitivas; E destas ilusões doces e vivas Só me restarem pálidas lembranças;
E abandonar-me a minha mãe Quimera, Que me aleitou aos seios abundantes; E vierem as nuvens flamejantes Encher o céu da minha primavera;
E raiar para mim um triste dia, Em que, por completar minha tristeza, Nem possa ver-te, musa da beleza, Nem possa ouvir-te, musa da harmonia;
Quando assim seja, por teus olhos juro, Voto minh'alma à escura soledade, Sem procurar melhor felicidade, E sem ambicionar prazer mais puro,
Como o viajor que, da falaz miragem Volta desenganado ao lar tranqüilo E procura, naquele último asilo, Nem evocar memórias da viagem,
Envolvido em mim mesmo, olhos cerrados A tudo mais, — a minha fantasia As asas colherá com que algum dia Quis alcançar os cimos elevados.
És tu a maior glória de minha alma, Se o meu amor profundo não te alcança, De que me servirá outra esperança? Que glória tirarei de alheia palma? *
Tu que és bela e feliz, tu que tens por diadema A dupla irradiação da beleza e do amor; E sabes reunir, como o melhor poema, Um desejo da terra e um toque do Senhor;
Tu que, como a ilusão, entre névoas deslizas Aos versos do poeta um desvelado olhar, Corina, ouve a canção das amorosas brisas, Do poeta e da luz, das selvas e do mar.

AS BRISAS

Deu-nos a harpa eólia a excelsa melodia Que a folhagem desperta e torna alegre a flor, Mas que vale esta voz, ó musa da harmonia, Ao pé da tua voz, filha da harpa do amor?
Diz-nos tu como houveste as notas do teu canto? Que alma de serafim volteia aos lábios teus? Donde houveste o segredo e o poderoso encanto Que abre a ouvidos mortais a harmonia dos céus?
A LUZ
Eu sou a luz fecunda, alma da natureza; Sou o vivo alimento à viva criação. Deus lançou-me no espaço. A minha realeza Vai até onde vai meu vívido clarão.
Mas, se derramo vida a Cibele fecunda, Que sou eu ante a luz dos teus olhos? Melhor, A tua é mais do céu, mais doce, mais profunda, Se a vida vem de mim, tu dás a vida e o amor.

AS ÁGUAS

Do lume da beleza o berço celebrado Foi o mar; Vênus bela entre espumas nasceu. Veio a idade de ferro, e o nume venerado Do venerado altar baqueou: — pereceu.
Mas a beleza és tu. Como Vênus marinha, Tens a inefável graça e o inefável ardor. Se paras, és um nume; andas, uma rainha.
E se quebras um olhar, és tudo isso e és amor.
Chamam-te as águas, vem! tu irás sobre a vaga. A vaga, a tua mãe que te abre os seios nus, Buscar adorações de uma plaga a outra plaga. E das regiões da névoa às regiões da luz!
AS SELVAS
Um silêncio de morte entrou no seio às selvas. Já não pisa Diana este sagrado chão; Nem já vem repousar no leito destas relvas Aguardando saudosa o amor e Endimião.
Da grande caçadora a um solicito aceno Já não vem, não acode o grupo jovial; Nem o eco repete a flauta de Sileno, Após o grande ruído a mudez sepulcral.
Mas Diana aparece. A floresta palpita, Uma seiva melhor circula mais veloz; É vida que renasce, é vida que se agita; À luz do teu olhar, ao som da tua voz!

O POETA

Também eu, sonhador, que vi correr meus dias Na solene mudez da grande solidão, E soltei, enterrando as minhas utopias, O último suspiro e a última oração;
Também eu junto à voz da natureza, E soltando o meu hino ardente e triunfal, Beijarei ajoelhado as plantas da beleza, E banharei minh'alma em tua luz, — Ideal!
Ouviste a natureza? Às súplicas e às mágoas Tua alma de mulher deve de palpitar; Mas que te não seduza o cântico das águas, Não procures, Corina, o caminho do mar!
Guarda estes versos que escrevi chorando Como um alívio à minha soledade, Como um dever do meu amor; e quando Houver em ti um eco de saudade, Beija estes versos que escrevi chorando.
Único em meio das paixões vulgares, Fui a teus pés queimar minh'alma ansiosa, Como se queima o óleo ante os altares; Tive a paixão indômita e fogosa, Única em meio das paixões vulgares.
Cheio de amor, vazio de esperança, Dei para ti os meus primeiros passos;
Minha ilusão fez-me, talvez, criança; E eu pretendi dormir aos teus abraços, Cheio de amor, vazio de esperança.
Refugiado à sombra do mistério Pude cantar meu hino doloroso; E o mundo ouviu o som doce ou funéreo Sem conhecer o coração ansioso Refugiado à sombra do mistério.
Mas eu que posso contra a sorte esquiva? Vejo que em teus olhares de princesa Transluz uma alma ardente e compassiva Capaz de reanimar minha incerteza; Mas eu que posso contra a sorte esquiva?
Como um réu indefeso e abandonado, Fatalidade, curvo-me ao teu gesto; E se a perseguição me tem cansado, Embora, escutarei o teu aresto, Como um réu indefeso e abandonado.
Embora fujas aos meus olhos tristes, Minh'alma irá saudosa, enamorada, Acercar-se de ti lá onde existes; Ouvirás minha lira apaixonada, Embora fujas aos meus olhos tristes.
Talvez um dia meu amor se extinga, Como fogo de Vesta mal cuidado, Que sem o zelo da Vestal não vinga; Na ausência e no silêncio condenado Talvez um dia meu amor se extinga.
Então não busques reavivar a chama. Evoca apenas a lembrança casta Do fundo amor daquele que não ama; Esta consolação apenas basta; Então não busques reavivar a chama.
Guarda estes versos que escrevi chorando, Como um alívio à minha soledade, Como um dever do meu amor; e quando Houver em ti um eco de saudade, Beija estes versos que escrevi chorando.
Em vão! Contrário a amor é nada o esforço humano; É nada o vasto espaço, é nada o vasto oceano. Solta do chão abrindo as asas luminosas, Minh'alma se ergue e voa às regiões venturosas, Onde ao teu brando olhar, ó formosa Corina, Reveste a natureza a púrpura divina!
Lá, como quando volta a primavera em flor, Tudo sorri de luz, tudo sorri de amor;
Ao influxo celeste e doce da beleza, Pulsa, canta, irradia e vive a natureza; Mais lânguida e mais bela, a tarde pensativa Desce do monte ao vale; e a viração lasciva Vai despertar à noite a melodia estranha Que falam entre si os olmos da montanha; A flor tem mais perfume e a noite mais poesia; O mar tem novos sons e mais viva ardentia; A onda enamorada arfa e beija as areias, Novo sangue circula, ó terra, em tuas veias!
O esplendor da beleza é raio criador: Derrama a tudo a luz, derrama a tudo o amor. Mas vê. Se o que te cerca é uma festa de vida, Eu, tão longe de ti, sinto a dor mal sofrida Da saudade que punge e do amor que lacera E palpita e soluça e sangra e desespera. Sinto em torno de mim a muda natureza Respirando, como eu, a saudade e a tristeza; É deste ermo que eu vou, alma desventurada, Murmurar junto a ti a estrofe imaculada Do amor que não perdeu, coa última esperança, Nem o intenso fervor, nem a intensa lembrança.
Sabes se te eu amei, sabes se te amo ainda, Do meu sombrio céu alma estrela bem-vinda! Como divaga a abelha inquieta e sequiosa Do cálice do lírio ao cálice da rosa, Divaguei de alma em alma em busca deste amor; Gota de mel divino, era divina a flor Que o devia conter. Eras tu.
No delírio De te amar — olvidei as lutas e o martírio; Eras tu. Eu só quis, numa ventura calma, Sentir e ver o amor através de uma alma; De outras belezas vãs não valeu o esplendor, A beleza eras tu: — tinhas a alma e o amor. Pelicano do amor, dilacerei meu peito, E com meu próprio sangue os filhos meus aleito; Meus filhos: o desejo, a quimera, a esperança; Por eles reparti minh'alma. Na provança Ele não fraqueou, antes surgiu mais forte;É que eu pus neste amor, neste último transporte, Tudo o que vivifica a minha juventude: O culto da verdade e o culto da virtude, A vênia do passado e a ambição do futuro, O que há de grande e belo, o que há de nobre e puro.
Deste profundo amor, doce e amada Corina, Acorda-te a lembrança um eco de aflição? Minh'alma pena e chora à dor que a desatina: Sente tua alma acaso a mesma comoção?
Em vão! Contrário a amor é nada o esforço humano, É nada o vasto espaço, é nada o vasto oceano!
Vou, sequioso espírito, Cobrando novo alento, N'asa veloz do vento Correr de mar em mar; Posso, fugindo ao cárcere, Que à terra me tem preso, Em novo ardor aceso, Voar, voar, voar!
Então, se à hora lânguida Da tarde que declina, Do arbusto da colina Beijando a folha e a flor, A brisa melancólica Levar-te entre perfumes Uns tímidos queixumes Ecos de mágoa e dor;
Então, se o arroio tímido Que passa e que murmura À sombra da espessura Dos verdes salgueirais, Mandar-te entre os murmúrios Que solta nos seus giros, Uns como que suspiros De amor, uns ternos ais;
Então, se no silêncio Da noite adormecida, Sentires — mal dormida — Em sonho ou em visão, Um beijo em tuas pálpebras, Um nome aos teus ouvidos, E ao som de uns ais partidos Pulsar teu coração;
Da mágoa que consome O meu amor venceu; Não tremas: — é teu nome, Não fujas — que sou eu!



ÚLTIMA FOLHA


Musa, desce do alto da montanha Onde aspiraste o aroma da poesia, E deixa ao eco dos sagrados ermos
A última harmonia.
Dos teus cabelos de ouro, que beijavam Na amena tarde as virações perdidas, Deixa cair ao chão as alvas rosas
E as alvas margaridas.
Vês? Não é noite, não, este ar sombrio Que nos esconde o céu. Inda no poente
Não quebra os raios pálidos e frios O sol resplandecente.
Vês? Lá ao fundo o vale árido e seco Abre-se, como um leito mortuário; Espera-te o silêncio da planície,
Como um frio sudário.
Desce. Virá um dia em que mais bela, Mais alegre, mais cheia de harmonias, Voltes a procurar a voz cadente
Dos teus primeiros dias.
Então coroarás a ingênua fronte Das flores da manhã, — e ao monte agreste, Como a noiva fantástica dos ermos,
Irás, musa celeste!
Então, nas horas solenes Em que o místico himeneu Une em abraço divino Verde a terra, azul o céu;
Quando, já finda a tormenta Que a natureza enlutou, Bafeja a brisa suave Cedros que o vento abalou;
E o rio, a árvore e o campo, A areia, a face do mar, Parecem, como um concerto, Palpitar, sorrir, orar;
Então sim, alma de poeta, Nos teus sonhos cantarás A glória da natureza A ventura, o amor e a paz!
Ah! mas então será mais alto ainda; Lá onde a alma do vate Possa escutar os anjos,
E onde não chegue o vão rumor dos homens;
Lá onde, abrindo as asas ambiciosas, Possa adejar no espaço luminoso, Viver de luz mais viva e de ar mais puro,
Fartar-se do infinito!
Musa, desce do alto da montanha Onde aspiraste o aroma da poesia, E deixa ao eco dos sagrados ermos
A última harmonia.



LÚCIA


1860 (Alfred de Musset)
Nós estávamos sós; era de noite; Ela curvara a fronte, e a mão formosa,
Na embriaguez da cisma, Tênue deixava errar sobre o teclado; Era um murmúrio; parecia a nota De aura longínqua a resvalar nas balças E temendo acordar a ave no bosque; Em torno respiravam as boninas Das noites belas as volúpias mornas; Do parque os castanheiros e os carvalhos Brando embalavam orvalhados ramos; Ouvíamos a noite; entrefechada,
A rasgada janela Deixava entrar da primavera os bálsamos; A várzea estava erma e o vento mudo; Na embriaguez da cisma a sós estávamos
E tínhamos quinze anos!
Lúcia era loira e pálida; Nunca o mais puro azul de um céu profundo Em olhos mais suaves refletiu-se. Eu me perdia na beleza dela, E aquele amor com que eu a amava — e tanto! — Era assim de um irmão o afeto casto, Tanto pudor nessa criatura havia!
Nem um som despertava em nossos lábios; Ela deixou as suas mãos nas minhas; Tíbia sombra dormia-lhe na fronte, E a cada movimento — na minh’alma Eu sentia, meu Deus, como fascinam Os dous signos de paz e de ventura:
Mocidade da fronte
E primavera d’alma. A lua levantada em céu sem nuvens Com uma onda de luz veio inundá-la; Ela viu sua imagem nos meus olhos, Um riso de anjo desfolhou nos lábios
E murmurou um canto.
........................................
Filha da dor, ó lânguida harmonia! Língua que o gênio para amor criara — E que, herdara do céu, nos deu a Itália! Língua do coração — onde alva idéia, — Virgem medrosa da mais leve sombra, — Passa envolta num véu e oculta aos olhos! Que ouvirá, que dirá nos teus suspiros Nascidos do ar, que ele respira — o infante? Vê-se um olhar, uma lágrima na face, O resto é um mistério ignoto às turbas, Como o do mar, da noite e das florestas!
Estávamos a sós e pensativos. Eu contemplava-a. Da canção saudosa Como que em nós estremecia um eco. Ela curvou a lânguida cabeça... Pobre criança! — no teu seio acaso Desdêmona gemia? Tu choravas, E em tua boca consentias triste Que eu depusesse estremecido beijo; Guardou-a a tua dor ciosa e muda: Assim, beijei-te descorada e fria, Assim, depois tu resvalaste à campa; Foi, com a vida, tua morte um riso, E a Deus voltaste no calor do berço.
Doces mistérios do singelo teto
Onde a inocência habita; Cantos, sonhos d’amor, gozos de infante, E tu, fascinação doce e invencível, Que à porta já de Margarida, — o Fausto
Fez hesitar ainda, Candura santa dos primeiros anos Onde parais agora?
Paz à tua alma, pálida menina! Ermo de vida, o piano em que tocavas Já não acordará sob os teus dedos!



O DILÚVIO


1863
E caiu a chuva sobre a terra quarenta dias e quarenta noites.
GÊNESIS — cap.7, vers. 12
Do sol ao raio esplêndido, Fecundo, abençoado, A terra exausta e úmida Surge, revive já; Que a morte inteira e rápida Dos filhos do pecado Pôs termo à imensa cólera Do imenso Jeová!
Que mar não foi! que túmidas As águas não rolavam! Montanhas e planícies Tudo tornou-se um mar; E nesta cena lúgubre Os gritos que soavam Era um clamor uníssono Que a terra ia acabar.
Em vão, ó pai atônito, Ao seio o filho estreitas;
Filhos, esposos, míseros, Em vão tentais fugir! Que as águas do dilúvio Crescidas e refeitas, Vão da planície aos píncaros Subir, subir, subir!
Só, como a idéia única De um mundo que se acaba, Erma, boiava intrépida, A arca de Noé; Pura das velhas nódoas De tudo o que desaba, Leva no seio incólumes A virgindade e a fé.
Lá vai! Que um vento alígero, Entre os contrários ventos, Ao lenho calmo e impávido Abre caminho além... Lá vai ! Em torno angústias, Clamores e lamentos; Dentro a esperança, os cânticos, A calma, a paz e o bem.
Cheio de amor, solícito, O olhar da divindade, Vela os escapos náufragos Da imensa aluvião. Assim, por sobre o túmulo Da extinta humanidade Salva-se um berço; o vínculo Da nova criação.
Íris, da paz o núncio, O núncio do concerto, Riso do Eterno em júbilo, Nuvens do céu rasgou; E a pomba, a pomba mística, Voltando ao lenho aberto, Do arbusto da planície Um ramo despencou.
Ao sol e às brisas tépidas Respira a terra um hausto, Viçam de novo as árvores, Brota de novo a flor; E ao som de nossos cânticos, Ao fumo do holocausto Desaparece a cólera Do rosto do Senhor.




1863
Mueveme enfin tu amor de tal manera Que aunque no hubiera cielo yo te amara
SANTA TERESA DE JESUS
As orações dos homens Subam eternamente aos teus ouvidos; Eternamente aos teus ouvidos soem
Os cânticos da terra.
No turvo mar da vida Onde os parcéis do crime a alma naufraga, A derradeira bússola nos seja,
Senhor, tua palavra.
A melhor segurança Da nossa íntima paz, Senhor, é esta; Esta a luz que há de abrir à estância eterna
O fúlgido caminho.
Ah! feliz o que pode, No extremo adeus às cousas deste mundo, Quando a alma, despida de vaidade,
Vê quanto vale a terra;
Quando das glórias frias Que o tempo dá e o mesmo tempo some, Despida já, — os olhos moribundos
Volta às eternas glórias;
Feliz o que nos lábios, No coração, na mente põe teu nome, E só por ele cuida entrar cantando
No seio do infinito.



A CARIDADE


1861
Ela tinha no rosto uma expressão tão calma Como o sono inocente e primeiro de uma alma Donde não se afastou ainda o olhar de Deus; Uma serena graça, uma graça dos céus, Era-lhe o casto, o brando, o delicado andar, E nas asas da brisa iam-lhe a ondear Sobre o gracioso colo as delicadas tranças.
Levava pelas mãos duas gentis crianças.
Ia caminho. A um lado ouve magoado pranto. Parou. E na ansiedade ainda o mesmo encanto Descia-lhe às feições. Procurou. Na calçada À chuva, ao ar, ao sol, despida, abandonada A infância lacrimosa, a infância desvalida,
Pedia leito e pão, amparo, amor, guarida.
E tu, ó caridade, ó virgem do Senhor, No amoroso seio as crianças tomaste, E entre beijos — só teus — o pranto lhes secaste Dando-lhes pão, guarida, amparo, leito e amor.




A JOVEM CATIVA


1861
(André Chenier)
— “Respeita a foice a espiga que desponta; Sem receio ao lagar o tenro pâmpano Bebe no estio as lágrimas da aurora; Jovem e bela também sou; turvada A hora presente de infortúnio e tédio Seja embora; morrer não quero ainda!
De olhos secos o estóico abrace a morte; Eu choro e espero; ao vendaval que ruge Curvo e levanto a tímida cabeça. Se há dias maus, também os há felizes! Que mel não deixa um travo de desgosto? Que mar não incha a um temporal desfeito?
Tu, fecunda ilusão, vives comigo. Pesa em vão sobre mim cárcere escuro, Eu tenho, eu tenho as asas da esperança: Escapa da prisão do algoz humano, Nas campinas do céu, mais venturosa, Mais viva canta e rompe a filomela.
Deve acaso morrer? Tranqüila durmo, Tranqüila velo; e a fera do remorso Não me perturba na vigília ou sono; Terno afago me ri nos olhos todos Quando apareço, e as frontes abatidas Quase reanima um desusado júbilo.
Desta bela jornada é longe o termo. Mal começo; e dos olmos do caminho Passei apenas os primeiros olmos. No festim em começo da existência Um só instante os lábios meus tocaram A taça em minhas mãos ainda cheia.
Na primavera estou, quero a colheita Ver ainda, e bem como o rei dos astros, De sazão em sazão findar meu ano. Viçosa sobre a haste, honra das flores, Hei visto apenas da manhã serena Romper a luz, — quero acabar meu dia.
Morte, tu podes esperar; afasta-te! Vai consolar os que a vergonha, o medo, O desespero pálido devora. Pales inda me guarda um verde abrigo, Ósculos o amor, as musas harmonias; Afasta-te, morrer não quero ainda!”—
Assim, triste e cativa, a minha lira Despertou escutando a voz magoada De uma jovem cativa; e sacudindo O peso de meus dias langorosos, Acomodei à branda lei do verso Os acentos da linda e ingênua boca.
Sócios meus de meu cárcere, estes cantos Farão a quem os ler buscar solícito Quem a cativa foi; ria-lhe a graça Na ingênua fronte, nas palavras meigas; De um termo à vinda há de tremer, como ela, Quem aos seus dias for casar seus dias.




NO LIMIAR



1863
Caía a tarde. Do infeliz à porta, Onde mofino arbusto aparecia, De tronco seco e de folhagem morta,
Ele que entrava e Ela que saía Um instante pararam; um instante Ela escutou o que Ele lhe dizia;
— “Que fizeste? Teu gesto insinuante Que lhe ensinou? Que fé lhe entrou no peito Ao mago som da tua voz amante?
“Quando lhe ia o temporal desfeito De que raio de sol o mantiveste? E de que flores lhe forraste o leito?”
Ela, volvendo o olhar brando e celeste, Disse: “— Varre-lhe a alma desolada, Que nem um ramo, uma só flor lhe reste!
“Torna-lhe, em vez da paz abençoada, Uma vida de dor e de miséria, Uma morte contínua e angustiada.
“Essa é a tua missão torva e funérea. Eu procurei no lar do infortunado Dos meus olhos verter-lhe a luz etérea.
“Busquei fazer-lhe um leito semeado De rosas festivais, onde tivesse
Um sono sem tortura nem cuidado.
“E por que o céu que mais se lhe enegrece, Tivesse algum reflexo de ventura Onde o cansado olhar espairecesse,
“Uma réstia de luz suave e pura Fiz-lhe descer à erma fantasia, De mel ungi-lhe o cálix da amargura.
“Foi tudo vão, — Foi tudo vã porfia, A aventura não veio. A tua hora Chega na hora que termina o dia.
“Entra”. — E o virgíneo rosto que descora Nas mãos esconde. Nuvens que correram Cobrem o céu que o sol já mal colora.
Ambos, com um olhar se compreenderam. Um penetrou no lar com passo ufano; Outra tomou por um desvio. Eram: Ela a Esperança, Ele o Desengano.



ASPIRAÇÃO


1862
A F. X. DE NOVAIS
Qu’aperçois-tu, mon âme? Au fond, n’estce-pas Dieu? Tu vais à lui...
V. DE LAPRADE
Sinto que há na minh’alma um vácuo imenso e fundo, E desta meia morte o frio olhar do mundo Não vê o que há de triste e de real em mim; Muita vez, ó poeta, a dor é casta assim; Refolha-se, não diz no rosto o que ela é, E nem que o revelasse, o vulgo não põe fé Nas tristes comoções da verde mocidade, E responde sorrindo à cruel realidade.
Não assim tu, ó alma, ó coração amigo; Nu, como a consciência, abro-me aqui contigo; Tu que corres, como eu, na vereda fatal Em busca do mesmo alvo e do mesmo ideal. Deixemos que ela ria, a turba ignara e vã; Nossas almas a sós, como irmão junto a irmã, Em santa comunhão, sem cárcere, nem véus, Conversarão no espaço e mais perto de Deus.
Deus quando abre ao poeta as portas desta vida Não lhe depara o gozo e a glória apetecida;
Traja de luto a folha em que lhe deixa escritas A suprema saudade e as dores infinitas. Alma errante e perdida em um fatal desterro, Neste primeiro e fundo e triste limbo do erro, Chora a pátria celeste, o foco, o cetro, a luz, Onde o anjo da morte, ou da vida, o conduz, No dia festival do grande livramento; Antes disso, a tristeza, o sombrio tormento, O torvo azar, e mais, a torva solidão, Embaciam-lhe n’alma o espelho da ilusão.
O poeta chora e vê perderem-se esfolhadas Da verde primavera as flores tão cuidadas; Rasga, como Jesus, no caminho das dores, Os lassos pés; o sangue umedece-lhe as flores Mortas ali, — e a fé, a fé mãe, a fé santa, Ao vento impuro e mau que as ilusões quebranta, Na alma que ali se vai muitas vezes vacila...
Oh! feliz o que pode, alma alegre e tranqüila, A esperança vivaz e as ilusões floridas, Atravessar cantando as longas avenidas Que levam do presente ao secreto porvir! Feliz esse! Esse pode amar, gozar, sentir, Viver enfim! A vida é o amor, é a paz, É a doce ilusão e a esperança vivaz; Não esta do poeta, esta que Deus nos pôs Nem como inútil fardo, antes como um algoz.
O poeta busca sempre o almejado ideal... Triste e funesto afã! tentativa fatal! Nesta sede de luz, nesta fome de amor, O poeta corre à estrela, à brisa, ao mar, à flor; Quer ver-lhe a luz na luz da estrela peregrina, Quer–lhe o cheiro aspirar na rosa da campina, Na brisa o doce alento, a voz na voz do mar, Ó inútil esforço! Ó ímprobo lutar! Em vez da luz, do aroma, ou do alento ou da voz, Acha-se o nada, o torvo, o impassível algoz!
Onde te escondes, pois, ideal da ventura? Em que canto da terra, em que funda espessura Foste esconder, ó fada, o teu esquivo lar? Dos homens esquecido, em ermo recatado, Que voz do coração, que lágrima, que brado Do sono em que ora estás te virá despertar?
A esta sede de amar só Deus conhece a fonte? Jorra ele ainda além deste fundo horizonte Que a mente não calcula, e onde se perde o olhar? Que asas nos deste, ó Deus, para transpor o espaço? Ao ermo do desterro inda nos prende um laço: Onde encontrar a mão que o venha desatar?
Creio que só em ti há essa luz secreta, Essa estrela polar dos sonhos do poeta, Esse alvo, esse termo, esse mago ideal;
Fonte de todo o ser e fonte da verdade, Nós vamos para ti, e em tua imensidade É que havemos de ter o repouso final.
É triste quando a vida, erma, como esta, passa, E quando nos impele o sopro da desgraça Longe de ti, ó Deus, e distante do amor! Mas guardemos, poeta, a melhor esperança: Sucederá a glória à salutar provança: O que a terra não deu, dar-nos-á o Senhor!



CLEÓPATRA



(Mme. Emile de Girardin)
Filha pálida da noite, Nume feroz de inclemência, Sem culto nem reverência, Nem crentes e nem altar, A cujos pés descarnados... A teus negros pés, ó morte! Só enjeitados da sorte Ousam frios implorar;
Toma a tua foice aguda, A arma dos teus furores; Venho c’roado de flores Da vida entregar-te a flor; É um feliz que te implora Na madrugada da vida, Uma cabeça perdida E perdida por amor.
Era rainha e formosa, Sobre cem povos reinava, E tinha uma turba escrava Dos mais poderosos reis. Eu era apenas um servo, Mas amava-a tanto, tanto, Que nem tinha um desencanto Nos seus desprezos cruéis.
Vivia distante dela Sem falar-lhe nem ouvi-la; Só me vingava em segui-la Para a poder contemplar; Era uma sombra calada Que oculta força levava, E no caminho a aguardava Para saudá-la e passar.
Um dia veio ela às fontes Ver os trabalhos... não pude, Fraqueou minha virtude,
Caí-lhe tremendo aos pés. Todo o amor que me devora, Ó Vênus, o íntimo peito, Falou naquele respeito, Falou naquela mudez.
Só lhe conquistam amores O herói, o bravo, o triunfante; E que coroa radiante Tinha eu para oferecer? Disse uma palavra apenas Que um mundo inteiro continha:
— Sou um escravo, rainha, Amo-te e quero morrer.
E a nova Ísis que o Egito Adora curvo e humilhado O pobre servo curvado Olhou lânguida a sorrir; Vi Cleópatra, a rainha, Tremer pálida em meu seio; Morte, foi-se-me o receio, Aqui estou, podes ferir.
Vem! que as glórias insensatas Das convulsões mais lascivas, As fantasias mais vivas, De mais febre e mais ardor, Toda a ardente ebriedade Dos seus reais pensamentos, Tudo gozei uns momentos Na minha noite de amor.
Pronto estou para a jornada Da estância escura e escondida; O sangue, o futuro, a vida Dou-te, ó morte, e vou morrer; Uma graça única — peço Como última esperança: Não me apagues a lembrança Do amor que me fez viver.
Beleza completa e rara Deram-lhe os numes amigos; Escolhe dos teus castigos O que infundir mais terror, Mas por ela, só por ela Seja o meu padecimento E tenha o intenso tormento Na intensidade do amor.
Deixa alimentar teus corvos Em minhas carnes rasgadas, Venham rochas despenhadas Sobre o meu corpo rolar, Mas não me tires dos lábios Aquele nome adorado,
E ao meu olhar encantado Deixa essa imagem ficar.
Posso sofrer os teus golpes Sem murmurar da sentença; A minha ventura é imensa E foi em ti que eu a achei; Mas não me apagues na fronte Os sulcos quentes e vivos Daqueles beijos lascivos Que já me fizeram rei.



Machado de Assis 
Machado de Assis



Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

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Machado de Assis

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