четверг, 22 июня 2017 г.

Americanas

       





POEMA PRESENTE NA PRIMEIRA EDIÇÃO

CANTIGA DO ROSTO BRANCO

POTIRA [1]

Os Tamoios, entre outras presas que fizeram, levaram esta índia, a qual pretendeu o capitão da empresa violar; resistiu valorosamente dizendo em língua brasílica: “Eu sou cristã e casada; não hei de fazer traição a Deus e a meu marido; bem podes matar-me e fazer de mim
o que quiseres.” Deu-se por afrontado o bárbaro, e em vingança lhe acabou a vida com grande crueldade.
VASC., CR. DA COMPANHIA DE JESUS, LIV. 3º
I
Moça cristã das solidões antigas, Em que áurea folha reviveu teu nome? Nem o eco das matas seculares, Nem a voz das sonoras cachoeiras, O transmitiu aos séculos futuros. Assim da tarde estiva às auras frouxas Tênue fumo do colmo no ar se perde; Nem de outra sorte em moribundos lábios A humana voz expira. O horror e o sangue Da miseranda cena em que, de envolta Coos longos, magoadíssimos suspiros, Cristã Lucrécia, abriu tua alma o vôo Para subir às regiões celestes, Mal deixada memória aos homens lembra. Isso apenas; não mais; teu nome obscuro, Nem tua campa o brasileiro os sabe.
II
Já da férvida luta os ais e os gritos Extintos eram. Nos baixéis ligeiros Os tamoios incólumes embarcam; Ferem coos remos as serenas ondas Até surgirem na remota aldeia. Atrás ficava, lutuosa e triste, A nascente cidade brasileira, [2] Do inopinado assalto espavorida, Ao céu mandando em coro inúteis vozes. Vinha já perto rareando a noite, Alva aurora, que à vida acorda as selvas, Quando a aldeia surgiu aos olhos torvos Da expedição noturna. À praia saltam Os vencedores em tropel; transportam Às cabanas despojos e vencidos, E, da vigília fatigados, buscam Na curva leve rede amigo sono, Exceto o chefe. Oh! esse não dormira Longas noites, se a troco da vitória Precisas fossem. Traz consigo o prêmio, O desejado prêmio. Desmaiada Conduz nos braços trêmulos a moça Que renegou Tupã, e as rudes crenças [3] Lavou nas águas do batismo santo. Na rede ornada de amarelas penas Brandamente a depõe. Leve tecido Da cativa gentil as formas cobre;
Veste-as de mais a sombra do crepúsculo, Sombra que a tíbia luz da alva nascente De todo não rompeu. Inquieto sangue Nas veias ferve do índio. Os olhos luzem De concentrada raiva triunfante. Amor talvez lhes lança um leve toque De ternura, ou já sôfrego desejo; Amor, como ele, aspérrimo e selvagem, Que outro não sente o herói.
Herói lhe chamam Quantos o hão visto no fervor da guerra Medo e morte espalhar entre os contrários E avantajar-se nos certeiros golpes Aos mais fortes da tribo. O arco e a flecha Desde a infância os meneia ousado e afoito; Cedo aprendeu nas solitárias brenhas A pleitear às feras o caminho. A força opõe à força, a astúcia à astúcia, Qual se da onça e da serpente houvera Colhido as armas. Traz ao colo os dentes Dos contrários vencidos. Nem dos anos O número supera o das vitórias; Tem no espaçoso rosto a flor da vida, A juventude, e goza entre os mais belos De real primazia. A cinta e a fronte Azuis, vermelhas plumas alardeam, Ingênuas galas do gentio inculto.
Da cativa gentil cerrados olhos Não se entreabrem à luz. Morta parece. Uma só contração lhe não perturba A paz serena do mimoso rosto. Junto dela, cruzados sobre o peito Os braços, Anajê contempla e espera; Sôfrego espera, enquanto idéias negras Estão a revoar-lhe em torno e a encher-lhe A mente de projetos tenebrosos. Tal no cimo do velho Corcovado Próxima tempestade engloba as nuvens. Súbito ao seio túrgido e macio Ansiosas mãos estende; inda palpita O coração, com desusada força, Como se a vida toda ali buscasse Refúgio certo e último. Impetuoso O vestido cristão lhe despedaça, E à luz já viva da manhã recente Contempla as nuas formas. Era acaso A síncope chegada ao termo próprio, Ou, no pejo ofendida, às mãos estranhas A desmaiada moça despertara. Potira acorda, os olhos lança em torno, Fita, vê, compreende, e inquieta busca
Fugir do vencedor às mãos e ao crime... Mísera! opõe-se-lhe o irritado gesto Do aspérrimo guerreiro; um ai lhe sobe Angustioso e triste aos lábios trêmulos, Sobe, murmura e sufocado expira. Na rede envolve o corpo, e, desviando Do terrível tamoio os lindos olhos, Entrecortada prece aos céus envia, E as faces banha de serenas lágrimas.
Longo tempo correra. Amplo silêncio Reinou entre ambos. Do tamoio a fronte Pouco a pouco despira o torvo aspecto. Ao trabalhado espírito, revolto De mil sinistros pensamentos, volve Benigna calma. Tal de um rio engrossa O volume extensíssimo das águas Que vão enchendo de pavor os ecos, Vencendo no arruído o vento e o raio, E pouco a pouco atenuando as vozes, Adelgaçando as ondas, tornam mansas Ao primitivo leito. Ei-lo se inclina, Para tomar nos braços a formosa Por cujo amor incendiara a aldeia Daquelas gentes pálidas de Europa. Sente-lhe a moça as mãos, e erguendo o rosto, O rosto inda de lágrimas molhado, Do coração estas palavras solta:
“— Lá entre os meus, suave e amiga morte, Ah! porque me não deste? Houvera ao menos Quem escutasse de meus lábios frios A prece derradeira; e a santa bênção Levaria minha alma aos pés do Eterno... Não, não te peço a vida; é tua, extingue-a; Um só alívio imploro. Não receies Embeber no meu sangue a ervada seta; Mata-me, sim; mas leva-me onde eu possa Ter em sagrado leito o último sono!”
Disse, e fitando no índio ávidos olhos, Esperou. Anajê sacode a fronte, Como se lhe pesara idéia triste; Crava os olhos no chão; lentas lhe saem Estas vozes do peito:
“Oh! nunca os padres Pisado houvessem estas plagas virgens! Nunca de um deus estranho as leis ignotas Viessem perturbar as tribos, como Perturba o vento as águas! Rosto a rosto Os guerreiros pelejam; matam, morrem. Ante o fulgor das armas inimigas Não descora o tamoio. Assaz lhe pulsa Valor nativo e raro em peito livre. Armas, deu-lhas Tupã novas e eternas
Nestas matas vastíssimas. De sangue Estranhos rios hão de, ao mar correndo, Tristes novas levar à pátria deles, Primeiro que o tamoio a frente incline Aos inimigos peitos. Outra força, Outra e maior nos move a guerra crua; São eles, são os padres. Esses mostram Cheia de riso a boca e o mel nas vozes, Sereno o rosto e as brancas mãos inermes; Ordens não trazem de cacique alheio, Tudo nos levam, tudo. Uma por uma As filhas de Tupã correm trás eles, Com elas os guerreiros, e com todos A nossa antiga fé. Vem perto o dia Em que, na imensidão destes desertos, Há de ao frio luar das longas noites O pajé suspirar sozinho e triste Sem povo nem Tupã!”
Silenciosas Lágrimas lhe espremeu dos olhos negros Esta lembrança de futuros males.
“Escuta!” diz Potira. O índio estende Imperioso as mãos e assim prossegue:
Também com eles foste, e foi contigo Da minha vida a flor! Teu pai mandara, E com ele mandou Tupã, que eu fosse Teu esposo; vedou-mo a voz dos padres, Que me perdeu, levando-te consigo. Não morri; vivi só para esta afronta; Vivi para esta insólita tristeza De maldizer teu nome e as graças tuas, Chorar-te a vida e desejar-te a morte. Ai! nos rudes combates em que a tribo Rega de sangue o chão da virgem terra Ou tinge a flor do mar, nunca a meu lado Teu nobre vulto esteve. A aldeia toda, Mais que o teu coração, ficou deserta. Duas vezes, mimosas rebentaram Do lacrimoso cajueiro as flores, Desde o dia funesto em que deixaste A cabana paterna. O extremo lume Expirou de teu pai nos olhos tristes; Piedosa chama consumiu seus restos, E a aldeia toda o lastimou com prantos. Não de todo se foi da nossa vida; Parte ficou para sentir teus males. Antes que o último sol à melindrosa Flor do maracujá cerrasse as folhas Um sonho tive. Merencório vulto, Triste como uma fronte de vencido, Cor da lua os cabelos venerandos, O vulto de teu pai : “Guerreiro (disse),
Corre à vizinha habitação dos brancos, Vai, arranca Potira à lei funesta Dos pálidos pajés; Tupã to ordena; Nos braços traze a fugitiva corça; Vincula o teu destino ao dela; é tua.”
“Impossível! Que vale um vago sonho? Sou esposa e cristã. Ímpio, respeita O amor que Deus protege e santifica; Mata-me; a minha vida te pertence; Ou, se te pesa derramar o sangue Daquela a quem amaste, e por quem foste Lançar entre os cristãos a dor e o susto, Faze-me escrava; servirei contente Enquanto a vida alumiar meus olhos. Toma, entrego-te o sangue e a liberdade; Ordena ou fere. Tua esposa, nunca!”
Calou-se, e reclinada sobre a rede, Potira murmurava ignota prece, Olhos fitos no próximo arvoredo, Olhos não ermos de profunda mágoa.
VII
Ó Cristo! em que alma penetrou teu nome Que lhe não desse o bálsamo da vida? Pelo vento dos séculos levado, Vidente e cego, o máximo dos seres, Que fora do homem nesta escassa terra, Se ao mistério da vida lhe não desses, Ó Cristo! a eterna chave da esperança? Filosofia estóica, árdua virtude, Criação de homem, tudo passa e expira. Tu só, filha de Deus, palavra amiga, Tu, suavíssima voz da eternidade, Tu perduras, tu vales, tu confortas. Neste sonho iriado de outros sonhos, Vários como as feições da natureza, Nesta confusa agitação da vida, Que alma transpõe a derradeira idade Farta de algumas passageiras glórias? Torvo é o ar do sepulcro; ali não viçam Essas cansadas rosas da existência Que às vezes tantas lágrimas nos custam, E tantas mais antes do ocaso expiram. Flor do Evangelho, núncia de alvos dias, Esperança cristã, não te há murchado O vento árido e seco; és tu viçosa Quando as da terra lânguidas inclinam O seio, e a vida lentamente exalam. Esta a consolação última e doce Da esposa indiana foi. Cativa ou morta, Antevia a celeste recompensa Que aos humildes reserva a mão do Eterno. Naquele rude coração das brenhas A semente evangélica brotara.
Das duas condições deu-lhe o guerreiro A pior, — fê-la escrava; e ei-la aparece Da sua aldeia aos olhos espantados Qual fora em dias de melhor ventura. Despida vem das roupas que lhe há posto Sobre as polidas formas uso estranho, Não sabido jamais daqueles povos Que a natureza ingênua doutrinara. Vence na gentileza às mais da tribo, E tem de sobra um sentimento novo, Pudor de esposa e de cristã, — realce Que ao índio acende a natural volúpia. Simulada alegria lhe descerra Os lábios; riso à flor, escasso e dúbio, Que mal lhe encobre as vergonhosas mágoas. À voz do seu senhor acorre humilde; Não a assusta o labor; nem dos perigos Conhece os medos. Nas ruidosas festas, Quando ferve o cauim, e o ar atroa [4] Pocema de alegria ou de combate, Como que se lhe fecha a flor do rosto. Já lhe descai então no seio opresso A graciosa fronte; os olhos fecha, E ao céu voltando o pensamento puro, Menos por si, que pelos outros pede. Nem só o ardor da fé lhe abrasa o peito; Lacera-lho também agra saudade; Chora a separação do amado esposo, Que, ou cedo a esquece, ou solitário geme. Se, alguma vez, fugindo a estranhos olhos, Não já cruéis, mas cobiçosos dela, Entra desatinada o bosque antigo, E a dor expande em lôbregos soluços, Coo doce nome acorda ao longe os ecos, Farta de amor e pródiga de vida, Ouve-as a selva, e não lhe entende as mágoas. Outras vezes pisando a ruiva areia Das praias, ou galgando a penedia Cujos pés orla o mar de nívea espuma, As ondas murmurantes interroga; Conta ao vento da noite as dores suas; Mas... fiéis ao destino e à lei que as rege, As preguiçosas ondas vão caminho, Crespas do vento que sussurra e passa.
Quando, ao sol da manhã, partem às vezes, Com seus arcos, os destros caçadores, E alguns da rija estaca desatando Os nós de embira às rápidas igaras, À pesca vão pelas ribeiras próximas, Das esposas, das mães que os lares velam, Grata alegria os corações inunda,
Menos o dela, que suspira e geme, E não aguarda doce esposo ou filho. Triste os vê na partida e no regresso, E nessa melancólica postura, Semelha a acácia langue e esmorecida, Que já de orvalho ou sol não pede os beijos. As outras... — Raro em lábios de felizes Alheias mágoas travam. Não se pejam De seus olhos azuis e alegres penas Os saís sobre as árvores pousados, Se ao perto voa na campina verde De anuns lutuoso bando; nem os trilos Das andorinhas interrompe a nota Que a juriti suspira. — As outras folgam Pelo arraial dispersas; vão-se à terra Arrancar as raízes nutritivas, E fazem os preparos do banquete A que hão de vir mais tarde os destemidos Senhores do arco, alegres vencedores De quanto vive na água e na floresta. Da cativa nenhuma inquire as mágoas. Contudo, algumas vezes, curiosas Virgens lhe dizem, apiedando o gesto:
— “Pois que à taba voltaste, em que teus olhos Primeiro viram luz, que mágoa funda Lhes destila tão longo e amargo pranto, Amargo mais do que esse que não busca Recatado silêncio?” — E às doces vozes A cristã desterrada assim responde:
— “Potira é como aquela flor que chora Lágrimas de alvo leite, se do galho Mão cruel a cortou. Oh! não permita O céu que ímpia fortuna vos separe Daquele que escolherdes. Dor é essa Maior que um pobre coração de esposa. Esperanças... Deixei-as nessas águas Que me trouxeram, cúmplices do crime,À taba de Tupã, não alumiada Da palavra celeste. Algumas vezes, Raras, alveja em minha noite escura Não sei que tíbia aurora, e penso: Acaso O sol que vem me guarda um raio amigo, Que há de acender nestes cansados olhos Ventura que já foi. As asas colhe Guanumbi, e o aguçado bico embebe No tronco, onde repousa adormecido Até que volte uma estação de flores. [5] Ventura imita o guanumbi dos campos: Acordará coas flores de outros dias. Doce ilusão que rápido se escoa, Como o pingo de orvalho mal fechado Numa folha que o vento agita e entorna”. E as virgens dizem, apiedando o gesto:
— “Potira é como aquela flor que chora Lágrimas de alvo leite, se do galho
Mão cruel a cortou!”
X
Era chegado O fatal prazo, o desenlace triste. Tudo morre, — a tristeza como o gozo; Rosas de amor ou lírios de saudade, Tarde ou cedo os esfolha a mão do tempo. Costeando as longas praias, ou transpondo Extensos vales e montanhas, correm Mensageiros que às tabas mais vizinhas Vão convidar à festa as gentes todas.Era a festa da morte. Índio guerreiro, Três luas há cativo, o instante aguarda Em que às mãos de inimigos vencedores, Caia expirante, e os vínculos rompendo Da vida, a alma remonte além dos Andes. Corre de boca em boca e de eco em eco A alegre nova. Vem descendo os montes, Ou abicando às povoadas praias Gente da raça ilustre. A onda imensa Pelo arraial se estende pressurosa. De quantas cores natureza fértil Tinge as próprias feições, copiam eles Engraçadas, vistosas louçanias. Vários na idade são, vários no aspecto, Todos iguais e irmãos no herdado brio. Dado o amplexo de amigo, acompanhado De suspiros e pêsames sinceros Pelas fadigas da viagem longa, Rompem ruidosas danças. Ao tamoio Deu o Ibaque os segredos da poesia; Cantos festivos, moduladas vozes, Enchem os ares, celebrando a festa Do sacrifício próximo. Ah! não cubra Véu de nojo ou tristeza o rosto aos filhos Destes polidos tempos! Rudes eram Aqueles homens de ásperos costumes, Que ante o sangue de irmãos folgavam livres, E nós, soberbos filhos de outra idade, Que a voz falamos da razão severa E na luz nos banhamos do Calvário, Que somos nós mais que eles? Raça triste De Cains, raça eterna...
XI
Os cantos cessam. Calou-se o maracá. As roucas vozes Dos férvidos guerreiros já reclamamO brutal sacrifício. Às mãos das servas A taça do cauim passara exausta. Inquieto aguarda o prisioneiro a morte. Da nação guaianás nos rudes campos Nasceu. Nos campos da saudosa pátria Industriosa mão não sabe ainda Alevantar as tabas. Cova funda Da terra, mãe comum, no seio aberta, [6] Os acolhe e protege. O chão lhes forra A pele do tapir; contínua chamaLhes supre a luz do sol. É uso antigo Do guaianás que chega a extrema idade, Ou de mortal doença acometido, Não expirar aos olhos de outros homens; Vivo o guardam no bojo da igaçaba, E à fria terra o dão, como se fora Pasto melhor (melhor!) aos frios vermes. Do almo, doce licor que extrai das flores Mãe do mel, iramaia, larga cópia Pelos robustos membros lhe coaram Seis anciãs da tribo. Rubras penas Na vasta fronte e nos nervosos braços Garridamente o enfeitam. Longa e forte A muçurana os rins lhe cinge e aperta. Entra na praça o fúnebre cortejo. Olhar tranqüilo, inda que fero, espalha O indomado cativo. Em pé, defronte, Grave, silencioso, ao sol mostrando De feias cores e vistosas plumas Singular harmonia, aguarda a vítima O executor. Nas mãos lhe pende a enorme Tagapema enfeitada, arma certeira, Arma triunfal de morte e de extermínio. Medem-se rosto a rosto os dois contrários Cum sorriso feroz. Confusas vozes Enchem súbito o espaço. Não lhe é dado Ao vencido guerreiro haver a morte Silenciosa e triste em que se passa Da curva rede à fria sepultura. Meigas aves que vão de um clima a outro Abrem placidamente as asas leves, Não tu, guerreiro, que encaraste a morte, Tu combate! Vencido e vencedores Derradeiros escárnios se arremessam; Gritos, injúrias, convulsões de raiva, Vivo clamor acorda os longos ecos Das penedias próximas. A clava Do executor girou no ar três vezes E de leve caiu na grossa espádua Do arquejante cativo. Já na boca Que o desprezo e o furor num riso entreabrem, Orla de espuma alveja. Avança, corre, Estaca... Não lhe dá mais amplo espaço A muçurana, cujas pontas tiram Dois mancebos robustos. Nas cavernas Do longo peito lhe murmura o ódio, Surdo, como o rumor da terra inquieta, Pejada de vulcões. Os lábios morde, E, como derradeira injúria, à face Do executor lhe cospe espuma e sangue. Não vibra o arco mais veloz o tiro, Nem mais segura no aterrado cervo Feroz sucuriúba os nós enrosca,
Do que a pesada, enorme tagapema A cabeça de um golpe lhe esmigalha. Cai fulminada a vítima na terra, E alegre o povo longamente aplaude.
XII
Na voz universal perdeu-se um grito De piedade e terror: tão fundo entrara Naquela alma roubada à noite escura Raio de sol cristão! Potira foge, Pelos bosques atônita se entranha E pára à margem de um pequeno rio; Pousa na relva os trêmulos joelhos E nas mimosas mãos esconde o rosto. Não de lágrimas era aquele sítio Ou só de doces lágrimas choradas De olhos que amor venceu: — macia relva, Leito de sesta a amores fugitivos. Da verde, rara abóbada de folhas Tépida e doce a luz coava a frouxo Do sol, que, além das árvores, tranqüilo, Metade da jornada ia transpondo. Longe era ainda a hora melancólica Em que a jurema cerra a miúda folha, E o lume azul o pirilampo acende. De pé, a um velho tronco descoroado Da copada ramagem, resto apenas, Vestígio do tufão, a indiana moça Languidamente encosta o esbelto corpo. Neste ameno recesso tudo é triste, Porque é alegre tudo. Não mui longe Um desfolhado ipê conserva e guarda Flores que lhe ficaram de outro estio, Como esperança de folhagem nova, Flores que a desventura lhe há negado, A ela, alma esquecida nesta terra, Que nada espera da estação vindoura. Olha, e de inveja o coração lhe estala. Pelo tronco das árvores se enroscam Parasitas, esposas do arvoredo, Mais fiéis não, mais venturosas que ela. Morrer? Descanso fora às mágoas suas, Mais que descanso, perdurável gozo, Que a nossa eterna pátria aos infelizes Deste desterro guarda alvas capelas De não murchandas e cheirosas flores. Tal lhe falava no íntimo do peito Desespero cruel. Alguns instantes Pela cansada mente lhe vagaram De voluntária, abreviada morte, Lutuosas idéias. Mal compreende Esses desmaios da criatura humana Quem não sentiu no coração rasgado Abatimento e enojo; ou, mais do que isto, Esse contraste imenso e irreparável Do amor interno e a solidão da vida.
Rápido espaço foi. Pronto lhe volve Doce resignação, cristã virtude, Que desafia e que assoberba os males. As débeis mãos levanta. Já dos lábios Solta nas asas de oração singela Lástimas suas... Na folhagem seca Ouve de cautos pés rumor sumido, Volve a cabeça...
XIII
Trêmulo, calado, Anajê crava nela os olhos turvos Dos vapores da festa. As mãos inermes Lhe pendem; mas o peito — ó mísera! — esse, Esse de mal contido amor transborda. Longo instante passou. Alfim: “Deixaste A festa nossa (o bárbaro murmura); Misteriosa vieste. Dos guerreiros Nenhum te viu; mas eu senti teus passos, E vim contigo ao ermo. Ave mesquinha, Inútil foges; gavião te espreita,[7] Minha te fez Tupã.” Em pé, sorrindo, Escutava Potira a voz severa De Anajê. Breve espaço abria entre ambos Alcatifado chão. A fatal hora Chegara ao fim? Não o perscruta a moça; Tudo aceita das mãos do seu destino, Tudo, exceto... No próximo arvoredo Ouve de uma ave o pio melancólico; Era a voz de seu pai? a voz do esposo? De ambos talvez. No ânimo da escrava Restos havia dessa crença antiga Antiga e sempre nova: o peito humano Raro de obscuros elos se liberta.
XIV
— “Nasceste para ser senhora e dona: Anajê não te veda a liberdade; Quebra tu mesma os nós do cativeiro. Faze-te esposa. Vem coroar meus dias; Vem, tudo esqueço. A fronte do guerreiro, Adornada por ti, será mais nobre; Mais forte o braço em que pousar teu rosto. Sou menos belo que esse esposo ausente? Rudes feições compensa amor sobejo. Vem; ver-me-ás companheira nos combates, E, se inimiga frecha entrar meu seio, Morrerei a teus pés. Tens medo aos padres? Outro destino escolhe. Cauteloso, Tece o japu nos elevados ramos Das elevadas árvores o ninho, Onde o inimigo lhe não roube a prole. Ninho há na serra ao nosso amor propício; Viveremos ali. Troveje em baixo A inúbia convidando à guerra os povos;
Leva de arcos transforme estas aldeias Em campos de combate, — ou já dispersas As fugitivas tribos vão buscando Longes sertões para chorar seus males, Viveremos ali. Talvez, um dia, Quando eu passar à misteriosa estância Das delícias eternas, me pergunte Meu velho pai: — “Teu arco de guerreiro Em que deserta praia o abandonaste?” Salvar-me-á teu amor do eterno pejo.”
Doce era a voz e triste. Rasos d’água Os olhos. Foi desmaio de tristeza Que o gesto dissipou da esquiva moça. Volve ao Tamoio vingativa idéia.
— “Minha (diz ele) ou morres!” Estremece Potira, como quando a brisa passa Ao de leve na folha da palmeira, E logo fria ao bárbaro responde:
— “Jaz esquecido em nossas velhas tabas O respeito da esposa? Acaso é digna Do sangue do Tamoio esta ameaça? Que desvalia aos olhos teus me coube, Se a outro me ligaram natureza, Religião, destino? A liberdade Nas tuas mãos depus; com ela a vida. É tudo, quase tudo. Honra de esposa, Oh! essa deves respeitá-la! Vai-te! Ceva teu ódio nas sangrentas carnes Do prostrado cativo. Aqui chorando, Na solidão destes bosques mal fechados, Às maviosas brisas meus suspiros Entregarei; levá-los-ão nas asas Lá onde geme solitário o esposo. Vai-te!”
E as mimosas mãos colhendo ao rosto, Alçou a Deus o pensamento amante, Como a centelha viva que a fogueira Extinta aos ares sobe. Imóvel, muda, Longo tempo ficou. Diante dela, Como ela imóvel, o tamoio estava. Amor, ódio, ciúme, orgulho, pena, Opostos sentimentos se combatem No atribulado peito. Generoso Era, mas não domado amor lhe dava Inspiração de crimes. Não mais pronto Cai sobre a triste corça fugitiva Jaguar de longa fome esporeado, Do que ele as mãos lançou ao colo e à fronte Da mísera Potira. Ai! não, não diga A minha voz o lamentoso instante Em que ela, ao seu algoz volvendo ansiosa Turvos olhos: “Perdôo-te!” murmura, Os lábios cerra e imaculada expira!
Estro maior teu nome obscuro cante, Moça cristã das solidões antigas, E eterno o cinja de virentes flores, Que as mereces. De não sabido bardo Estes gemidos são. Lânguidas brisas No taquaral à noite sussurrando, Ou enrugando o mole dorso às vagas, Não tem a voz com que domina os ecos Despenhada cachoeira. São, contudo, Mas que débeis e tristes, no concerto Da orquestra universal cabidas notas. Alveja a nebulosa entre as estrelas, E abre ao pé do rosal a flor da murta.
NIÂNI
(HISTÓRIA GUAICURU)
Desde então cobriu-se Nanine de uma mortal melancolia, sendo seus olhos sempre chorosos. Assim se passaram três meses, quando um dia, estando deitada na sua rústica cama, lhe deram a notícia que seu desleal marido se tinha casado com uma rapariga de menor esfera. Senta-se então Nanine na cama, como arrebatada, chama para junto de si um pequeno índio que era seu cativo, e diz-lhe na presença de vários antecris: “És meu cativo; dou-te a liberdade, com a condição de que te chamarás toda a vida Panenioxe”.
F. RODRIGUES PRADO, Hist. dos Índios Cavaleiros.
...che piange Vedova sola.
DANTE
Contam-se histórias antigas Pelas terras de além-mar, De moças e de princesas, Que amor fazia matar.
Mas amor que entranha n’alma E a vida soí acabar, Amor é de todo o clima, Bem como a luz, como o ar.
Morrem dele nas florestas Aonde habita o jaguar, Nas margens dos grandes rios Que levam troncos ao mar.
Agora direi um caso De muito penalizar, Tão triste como os que contam
Pelas terras de além-mar.
Cabana que esteira cobre De junco trançado a mão,
Que agitação vai por ela! Que ledas horas lhe vão!
Panenioxe é guerreiro [8] Da velha, dura nação.
Caiavaba há já sentido A sua lança e facão. [9]
Vem de longe, chega à porta Do afamado capitão;
Deixa a lança e o cavalo, Entra com seu coração.
A noiva que ele lhe guarda Moça é de nobre feição,
Airosa como ágil corça Que corre pelo sertão.
Amores eram nascidos Naquela tenra estação
Em que a flor que há de ser flor Inda se fecha em botão.
Muitos agora lhe querem, E muitos que fortes são; Niâni ao melhor deles [10] Não dera o seu coração.
Casá-los agora, é tempo; Casá-los, nobre ancião!
Limpo sangue tem o noivo, Que é filho de capitão. [11]
III
“— Traze a minha lança, escravo, Que tanto peito abateu;
Traze aqui o meu cavalo Que largos campos correu”.
“— Lança tens e tens cavalo Que meu velho pai te deu;
Mas aonde te vais agora Onde vais, esposo meu?”
“— Vou-me à caça, junto à cova Onde a onça se meteu...”
“— Montada no meu cavalo Vou contigo, esposo meu.”
“— Vou-me às ribas do Escopil,
Que a minha lança varreu...” “— Irei pelejar na guerra, A teu lado, esposo meu.”
“— Fica-te aí na cabana Onde o meu amor nasceu.” “— Melhor não haver nascido Se já de todo morreu”.
E uma lágrima, — a primeira De muitas que ela verteu, — Pela face cobreada Lenta, lenta lhe correu.
Enxugá-la, não a enxuga O esposo que já perdeu, Que ele no chão fita os olhos, Como que a voz lhe morreu.
Traz o escravo o seu cavalo Que o velho sogro lhe deu; Traz-lhe mais a sua lança Que tanto peito abateu.
Então, recobrando a alma, Que o remorso esmoreceu, Com esta dura palavraÀ esposa lhe respondeu:
“— A bocaiúva três vezes [12] No tronco amadureceu, Desde o dia em que o guerreiro Sua esposa recebeu.
Três vezes! Amor sobejo Nossa vida toda encheu. Fastio me entrou no seio, Fastio que me perdeu.”
E pulando no cavalo, Sumiu-se... desapareceu... Pobre moça sem marido, Chora o amor que lhe morreu!
IV
Leva o Paraguai as águas, Leva-as no mesmo correr, E as aves descem ao campo Como usavam de descer.
Tenras flores, que outro tempo Costumavam de nascer, Nascem; vivem de igual vida; Morrem do mesmo morrer.
Niâni, pobre viúva,
Viúva sem bem o ser, Tanta lágrima chorada Já te não pode valer.
Olhos que amor desmaiara De um desmaiar que é viver, O choro empana-os agora, Como que vão fenecer.
Corpo que fora robusto No seu cavalo a correr, De contínua dor quebrado Mal se pode já suster.
Colar de prata não usa, Como usava de trazer; Pulseiras de finas contas Todas as veio a romper. [13]
Que ela, se nada há mudado Daquele eterno viver, Com que a natureza sabe Renascer, permanecer,
Toda é outra; a alma lhe morre, Mas de um contínuo morrer, E não há mágoa mais triste De quantas podem doer.
Os que outrora a desejavam, Antes dela mal haver, Vendo que chora e padece, Rindo se põem a dizer:
“— Remador vai na canoa, Canoa vai a descer... Piranha espiou do fundo Piranha, que o vai comer.
Ninguém se fie da brasa Que os olhos vêem arder, Sereno que cai de noite Há de fazê-la morrer.
Panenioxe, Panenioxe, Não lhe sabias querer. Quem te pagara esse golpe Que lhe vieste fazer!”
Um dia, — era sobre tarde, Ia-se o sol a afundar; Calumbi cerrava as folhas Para melhor as guardar.
Vem cavaleiro de longe
E à porta vai apear. Traz o rosto carregado, Como a noite sem luar.
Chega-se à pobre da moça E assim começa a falar: “— Guaicuru dói-lhe no peito Tristeza de envergonhar.
Esposo que te há fugido Hoje se vai a casar; Noiva não é de alto sangue, Porém de sangue vulgar”.
Ergue-se a moça de um pulo, Arrebatada, e no olhar Rebenta-lhe uma faísca Como de luz a expirar.
Menino escravo que tinha Acerta de ali passar; Niâni atentando nele Chama-o para o seu lugar.
“— Cativo és tu; serás livre, Mas vais o nome trocar; Nome avesso te puseram... Panenioxe hás de ficar.”
Pela face cobreada
Desce, desce com vagar Uma lágrima: era a última Que lhe restava chorar.
Longo tempo ali ficara, Sem se mover nem falar; Os que a vêem naquela mágoa Nem ousam de a consolar.
Depois um longo suspiro, E ia a moça a expirar... O sol de todo morria E enegrecia-se o ar.
Pintam-na de vivas cores, [14] E lhe lançam um colar; Em fina esteira de junco Logo a vão amortalhar.
O triste pai suspirando Nos braços a vai tomar, Deita-a sobre o seu cavalo E a leva para enterrar.
Na terra em que dorme agora Justo lhe era descansar, Que pagou foro da vida
Com muito e muito penar.
Que assim se morre de amores Aonde habita o jaguar, Como as princesas morriam Pelas terras de além-mar.
A CRISTÃ-NOVA
...essa mesma foi levada cativa para uma terra estranha.
NAUM, cap. III, v. 10
PARTE I
I
Olhos fitos no céu, sentado à porta, O velho pai estava. Um luar frouxo Vinha beijar-lhe a veneranda barba Alva e longa, que o peito lhe cobria, Como a névoa na encosta da montanha Ao destoucar da aurora. Alta ia a noite, E silenciosa: a praia era deserta, Ouvia-se o bater pausado e longo Da sonolenta vaga, — único e triste Som que a mudez quebrava à natureza.
II
Assim talvez nas solidões sombrias Da velha Palestina Um profeta no espírito volvera As desgraças da pátria. Quão remota Aquela de seus pais sagrada terra, Quão diferente desta em que há vivido Os seus dias melhores! Vago e doce, Este luar não alumia os serros Estéreis, nem as últimas ruínas, Nem as ermas planícies, nem aquele Morno silêncio da região que fora E que a história de todo amortalhara.Ó torrentes antigas! águas santas De Cedron! Já talvez o sol que passa, E vê nascer e vê morrer as flores, Todas no leito vos secou, enquanto Estas murmuram plácidas e cheias, E vão contando às deleitosas praias Esperanças futuras. Longo e longo O devolver dos séculos Será, primeiro que a memória do homem Teça a mortalha fria Da região que inda tinge o albor da aurora.
III
Talvez, talvez no espírito fechado Do ancião vagueavam lentamente Estas idéias tristes. Junto à praia Era a austera mansão, donde se via Desenrolarem-se as serenas vagas Do nosso golfo azul. Não a enfeitavam As galas da opulência, nem os olhos Entristecia coo medonho aspecto Da miséria; não pródiga nem surda A fortuna lhe fora, mas aquela Mediana sóbria, que os desejos Contenta do filósofo, lhe havia Dourado os tetos. Guanabara ainda Não era a flor aberta Da nossa idade; era botão apenas, Que rompia do hastil, nascido à beira De suas ondas mansas. Simples e rude, Ia brotando a juvenil cidade, Nestas incultas terras, que a lembrança Recordava talvez do antigo povo, E o guau alegre, e as ríspidas pelejas, Toda essa vida que morreu.
IV
Sentada Aos pés do velho estava a amada filha, Bela como a açucena dos Cantares, Como a rosa dos campos. A cabeça Nos joelhos do pai reclina a moça, E deixa resvalar o pensamento Rio abaixo das longas esperanças E namorados sonhos. Negros olhos Por entre os mal fechados Cílios estende à serra que recorta Ao longe o céu. Morena é a face linda E levemente pálida. Mais bela, Nem mais suave era a formosa Rute Ante o rico Booz, do que essa virgem, Flor que Israel brotou do antigo tronco, Corada ao sol da juvenil América.
V
Mudos viam correr aquelas horas Da noite, os dois: ele voltando o rosto Ao passado, ela os olhos ao futuro. Cansam-lhe enfim ao pensamento as asas De ir voando, através da espessa treva, Frouxas as colhe, e desce ao campo exíguo Da realidade. A delicada virgem Primeiro volve a si; os lindos dedos Corre-lhe ao longo da nevada barba,
E: “— Pai amigo, que pensar vos leva Tão longe a alma?” Estremecendo o velho:
— “Curiosa! — lhe disse, — o pensamento É como as aves passageiras: voa A buscar melhor clima. — Oposto rumo Ias tu, alma em flor, aberta apenas, Tão longe ainda do calor da sesta, Tão remota da noite... Uma esperança Te sorria talvez? Talvez, quem sabe, Uns namorados olhos que me roubem, Que te levem... Não cores, filha minha! Esquecimento, não; lembrança ao menos Ficar-te-á do paterno afeto; e um dia, Quando eu na terra descansar meus ossos, Haverás doce bálsamo no seio Da afeição juvenil... Sim; não te acuso; Ama: é a lei da natureza, eterna! Ama: um homem será da nossa raça...”
Estas palavras tais ouvindo a moça, Turbada os olhos descaiu na terra, E algum tempo ficou calada e triste, Como no azul do céu o astro da noite, Se uma nuvem lhe empana a meio a face. Súbito a voz e o rosto alevantando, Com dissimulação, — pecado embora, Mas inocente: — “Olhai, a noite é linda! O vento encrespa molemente as ondas, E o céu é todo azul e todo estrelas! Formosa, oh! quão formosa a terra minha! Dizei: além desses compridos serros, Além daquele mar, à orla de outros, Outras como esta vivem?”
VII
Fresca e pura Era-lhe a voz, voz d’alma que sabia Entrar no coração paterno. A fronte Inclina o velho sobre o rosto amado De Ângela. — Na cabeça ósculo santo Imprime à filha; e suspirando, os olhos Melancolicamente ao ar levanta,
Desce-os e assim murmura: “Vaso é digno de ti, lírio dos vales, Terra solene e bela. A natureza Aqui pomposa, compassiva e grande, No regaço recebe a alma que chora E o coração que túmido suspira. Contudo, a sombra pesarosa e errante Do povo que acabou pranteia ainda
Ao longo das areias, Onde o mar bate, ou no cerrado bosque Inda povoado das relíquias suas, Que o nome de Tupã confessar podemNo próprio templo augusto. Última e forte Consolação é esta do vencido Que viu tudo perder-se no passado, E único salva do naufrágio imenso O seu Deus. Pátria não. Uma há na terra Que eu nunca vi... Hoje é ruína tudo, E viuvez e morte. Um tempo, entanto, Bela e forte ela foi; mas longe, longe Os dias vão da fortaleza e glória Escoados de todo como as águasQue não volvem jamais. Óleo que a unge, Finas telas que a vestem, atavios De ouro e prata que o colo e os braços lhe ornam, E a flor de trigo e mel de que se nutre,Sonhos, são sonhos do profeta. É morta [15] Jerusalém! Oh! quem lhe dera os dias Da passada grandeza, quando a planta Da senhora das gentes sobre o peito Pousava dos vencidos, quando o nome Do que há salvo Israel, Moisés”.
“— Não! Cristo, Filho de Deus! Só ele há salvo os homens!” Isto dizendo, a delicada virgem As mãos postas ergueu. Uma palavra Não disse mais; no coração, entanto, Murmurava uma prece silenciosa, Ardente e viva, como a fé que a anima Ou como a luz da alâmpada A que não faltou óleo.
VIII
Taciturno Esteve longo tempo o ancião. Aquela Alma infeliz nem toda era de Cristo Nem toda de Moisés; ouvia atento A palavra da Lei, como nos dias Do eleito povo; mas a doce nota Do Evangelho não raro lhe batia
No alvoroçado peito, Soleníssima e pura... Descambava No entanto a lua. A noite era mais linda, E mais augusta a solidão. Na alcova Entre a pálida moça. Da parede Um Cristo pende; ela os joelhos dobra, Os dedos cruza e reza, — não serena, Nem alegre também, como costuma, Mas a tremer-lhe nos formosos olhos Uma lágrima.
A lâmpada acendida Sobre a mesa do velho, as largas folhas Alumia de um livro. O máximo era Dos livros todos. A escolhida lauda Era a do canto dos cativos que iam Pelas ribas do Eufrates, relembrando
As desgraças da pátria. A sós, com eles, Suspira o velho aquele salmo antigo:
Junto os rios da terra amaldiçoada De Babilônia, um dia nos sentamos, Com saudades de Sião amada.
As harpas nos salgueiros penduramos, E ao relembrarmos os extintos dias As lágrimas dos olhos desatamos.
Os que nos davam cruas agonias De cativeiro, ali nos perguntavam Pelas nossas antigas harmonias.
E dizíamos nós aos que falavam: “Como em terra de exílio amargo e duro Cantar os hinos que ao Senhor louvavam?”
Jerusalém, se inda num sol futuro, Eu desviar de ti meu pensamento E teu nome entregar a olvido escuro,
A minha destra a frio esquecimento Votada seja; apegue-se à garganta Esta língua infiel, se um só momento
Me não lembrar de ti, se a grande e santa Jerusalém não for minha alegria Melhor no meio de miséria tanta.
Oh! lembra-lhes, Senhor, aquele dia Da abatida Sião, lembra-lho aos duros Filhos de Edom, e à voz que ali dizia:
Arruinai-a, arruinai-a; os muros Arrasemo-los todos; só lhe baste Um montão de destroços mal seguros.”
Filha de Babilônia, que pecaste, Abençoado o que se houver contigo Com a mesma opressão que nos mostraste!
Abençoado o bárbaro inimigo Que os tenros filhos teus às mãos tomando, Os for, por teu justíssimo castigo, Contra um duro penedo esmigalhando!
PARTE II
Era naquela doce e amável hora Em que vem branqueando a alva celeste, Quando parece que remoça a vida E toda se espreguiça a natureza.
Alva neblina que espalhara a noite Frouxamente nos ares se dissolve,
Como de uns olhos tristes Foge coo tempo a já ligeira sombra De consoladas mágoas. Vida é tudo. E pompa e graça natural da terra,
Mas que não seja no ermo, Onde seus olhos rútilos espraia Livres a aurora, sem tocar vestígios De obras caducas do homem, onde as águas Do rio bebe a fugitiva corça, Vivo aroma nos ares se difunde, E aves, e aves de infinitas cores Voando vão e revoando tornam, Inda senhoras da amplidão que é sua. Donde as há de fugir o homem um dia Quando a agreste solidão entrar o passo Criador que derruba. Já de todo Nado era o sol; e à viva luz que inunda Estes meus pátrios morros e estas praias,
Sorrindo a terra moça Noiva parece que o virgíneo seio Entrega ao beijo nupcial do amado. E há de os fúnebres véus lançar a morte Na verdura do campo? A natureza A nota vibrará da extrema angústia Neste festivo cântico de graças Ao sol que nasce, ao Criador que o envia, Como renovação de juventude?
Coava o sol pela miúda e fina Gelosia da alcova em que se apresta A recente cristã. Singelas roupas Traja da ingênua cor que a natureza Pintou nas plumas que primeiro brota O seu pátrio guará. Vínculo frouxo Mal lhe segura a luzidia trança,
Como ao desdém lançada Sobre a espádua gentil. Jóia nenhuma, Mais que seus olhos meigos, e essa doce Modéstia natural, encanto, enlevo, Casta flor que aborrece os mimos do horto, E ama livre nascer no campo, à larga, Rústica, mas formosa. Não lhe ensombram As tristezas da véspera o semblante, Nem da secreta lágrima na face Ficou vestígio, — Descuidosa e alegre, Ri-se, murmura uma cantiga, ou pensa, E repete baixinho um nome... Oh! se ele Espreitá-la pudesse ali risonha, A sós consigo, entre o seu Cristo e as flores Colhidas ao tombar da extinta noite, E vicejantes inda!
De repente, Aos ouvidos da moça enamorada Chega um surdo rumor de soltas vozes, Que ora crescendo vai, ora se apaga, Estranho, desusado. Eram... São eles, Os franceses, que vêm de longes praias A cobiçar a pérola mimosa, Niterói, na alva-azul concha nascida De suas águas recatadas. Rege O atrevido Duclerc a flor dos nobres, Cuja tez branca requeimara o fogo Que o vivo sol dos trópicos dardeja, E a lufada dos ventos do oceano. Cobiçam-te eles, minha terra amada, Como quando nas faixas sempre-verdes Eras envolta; e rude, inda que belo, O aspecto havias que poliu mais tarde A clara mão do tempo. Inda repetem Os ecos do recôncavo os suspiros Dos que vieram a buscar a morte, E a receberam dos varões possantes Companheiros de Estácio. A todos eles, Prole de Luso ou geração da Gália, Cativara-os a náiade escondida, E o sol os viu travados nessa longa E sangrenta porfia, cujo prêmio Era teu verde, cândido regaço. Triunfara o trabuco lusitano Naquele extinto século. Vencido, O pavilhão francês volvera à pátria, Pela água arrastando o longo crepe De suas tristes, mortas esperanças, Que vento novo o desfraldou nos ares?
Ângela ouvira as vozes da cidade, As vozes do furor. Já receosa, Trêmula, foge à alcova e se encaminha À câmera paterna. Ia transpondo A franqueada porta... e pára. O peito Rompe-lhe quase o coração, — tamanho É o palpitar, um palpitar de gosto, De surpresa e de susto. Aqueles olhos, Aquela graça máscula do gesto, Graça e olhos são dele, o amado noivo, Que entre os mais homens elegeu sua alma Para o vínculo eterno... Sim, que a morte Pode arrancar ao seio humano o alento Último e derradeiro; os que deveras Unidos foram, volverão unidos A mergulhar na eternidade. Estava Junto do velho pai o gentil moço, Ele todo agitado, o ancião sombrio, Calados ambos. A atitude de ambos, O misterioso, gélido silêncio,
Mais que tudo, a presença nunca usada Daquele homem ali, que mal a espreita De longe e a furto, nos instantes breves Em que lhe é dado vê-la, tudo à moça O ânimo abala e o coração enfia.
V
Mas o tropel de fora avulta e cresce E os três acorda. A virgem, lentamente, Rosto inclinado ao chão, transpõe o espaço Que dos dois a separa... O tenro colo Curva ante o pai, e na enrugada destra O ósculo imprime, herdada usança antiga De filial respeito. As mãos lhe toma Enternecido o velho; olhos com olhos Alguns instantes rápidos ficaram, Até que ele, voltando o rosto ao moço: “— Perdoai, — disse, — se o paterno afeto Me atou a língua. Vacilar é justo Quando à pobre ruína a flor lhe pedem Que única lhe nasceu, — única adorna A aridez melancólica do extremo, Pálido sol... Não protesteis! Roubá-la, Arrancá-la aos meus últimos instantes, Não o fareis decerto. Pouco importa Dês que a metade lhe levais da vida, Dês que seu coração, convosco parte Afeições minhas. — Ao demais, o sangue Que lhe corre nas veias, condenado, Nuno, será dos vossos...” Longo e frio Olhar estas palavras acompanha, Como a arrancar-lhe o pensamento interno. A donzela estremece. Nuno o alento Recobra e fala: “Puro sangue é ele, Se lhe corre nas veias. Tão mimosa, Cândida criatura, alma tão casta, Inda nascida entre os incréus da Arábia, Deus a votara à conversão e à vida Dos eleitos do céu. Águas sagradas Que a lavaram no berço, já nas veias O sangue velho e impuro lhe trocaram Pelo sangue de Cristo...”
VI
Neste instante Cresce o tumulto exterior. A virgem Medrosa toda se conchega ao colo Do velho pai. “Ouvis? Falai! é tempo! Nuno prossegue. Este comum perigo Chama os varões à ríspida batalha; Com eles vou. Se um galardão, entanto, Merecer de meus feitos, não à pátria Irei pedi-lo; só de vós o espero, Não o melhor, mas o único na terra, Que a minha vida...” Rematar não pôde Esta palavra. Ao escutar-lhe a nova
Da iminente peleja E a decisão de combater por ela, Inteiras sente as forças que se perdem A donzela, e bem como ao rijo vento
Inclina o colo o arbusto Nos braços desmaiou do pai. Volvida A si, na palidez do rosto o velho Atenta um pouco, e suspirando: “As armasEmpunhai; combatei; Ângela é vossa. Não de mim a havereis: ela a si mesma Toda nas vossas mãos se entrega. Morta Ou feliz é a escolha; não vacilo: Seja feliz, e folgarei com ela...”
VII
Sobre a fronte dos dois as mãos impondo, Ao seio os conchegou, bem como a tenda Do patriarca santo agasalhava O moço Isaac e a delicada virgem [16] Que entre os rios nasceu. Delicioso E solene era o quadro; mas solene E delicioso embora, ia esvair-se Qual celeste visão, que acende a espaços O ânimo do infeliz. A guerra, a dura Necessidade de imolar os homens, Por salvar homens, a terrível guerra Corta o amoroso vínculo que os prende E à moça o riso lhe converte em lágrimas. Mísera és tu, pálida flor; mas sofre Que o calor deste sol te acurve o cálix, Morta, não, nem já murcha, — mas apenas Como cansada de queimor do estio. Sofre; a tarde virá serena e branda A reviver-te o alento; a fresca noite Choverá sobre ti piedoso orvalho E mais risonha surgirás à aurora.
VIII
Foge à estância da paz o ardido moço; Esperança, fortuna, amor e pátria A guerrear o levam. Já nas veias O vivo sangue irrequieto pulsa, Como ansioso de correr por ambas, A bela terra e a suspirada noiva. Triste quadro a seus olhos se apresenta; Nos femininos rostos vê pintados Incerteza e terror; lamentos, gritos Soam de entorno. Voam pelas ruas Homens de guerra; homens de paz se aprestam Para a crua peleja; e, ou nobre estância, Ou choupana rasteira, armado é tudo Contra a forte invasão. Nem lá se deixa Quieto, a sós com Deus, na estreita cela, O solitário monge que às batalhas
Fugiu da vida. O patrimônio santo Cumpre salvá-lo. Cruz e espada empunha, Deixa a serena região da prece E voa ao torvelinho do combate.
IX
Entre os fortes alunos que dirige O ardido Bento, a perfilar-se corre [17] Nuno. Estes são os que o primeiro golpe Descarregam no atônito inimigo. Do militar ofício ignoram tudo, De armas não sabem; mas o brio e a honra E a lembrança da terra em que primeiro Viram a luz, e onde o perdê-la é doce, Essa a escola lhes foi. Pasma o inimigo Do nobre esforço e galhardia rara, Com que inda nos umbrais da vida que orna Tanta esperança, tanto sonho de ouro, Resolutos a morte encaram, prestes
A retalhar nas dobras Da vestidura fúnebre da pátria O piedoso lençol que os leve à campa, Ou com ela cingir o eterno louro.
X
Ó mocidade, ó baluarte vivo Da cara pátria! Já perdida é ela, Quando em teu peito entusiasmo santo E puro amor se extingue, e àquele nobre, Generoso despejo e ardor antigo Sucede o frio calcular, e o torpe Egoísmo, e quanto há hi no humano peito, Que é fruto nosso e podre... Muitos caem Mortos ali. Que importa? Vão seguindo Avante os bravos, que a invasão caminha Implacável e dura, como a morte, A pelejar e a destruir. Tingidas
Ruas de estranho sangue E sangue nosso, lacerados membros, Corpos de que há fugido a alma cansada, E o denso fumo e os fúnebres lamentos, Quem nessa confusão, miséria e glória Conhecerá da juvenil cidade O aspecto, a vida? Aqui da infância os dias Nuno vivera, à vicejante sombra Do seu pátrio arvoredo, ao som das vagas Que inda batendo vão na amada areia; Risos, jogos da verde meninice, Esta praia lhe lembra, aquela pedra, A mangueira do campo, a tosca cerca De espinheiro e de flores enlaçadas, A ave que voa, a brisa que suspira, Que suspira como ele há suspirado, Quando rompendo o coração do peito Ia-lhe empós dessa visão divina, Realidade agora... E há de perdê-las Pátria e noiva? Esta idéia lhe esvoaça Torva e surda no cérebro do moço, E ao contraído espírito redobra
Ímpeto e forças. Rompe Por entre a multidão dos seus, e investe Contra o duro inimigo; as balas voam, E com elas a morte, que não sabe Dos escolhidos seus a terra e o sangue, E indistintos os toma; ele, no meio Daquele horrível turbilhão, parece Que a faísca do gênio o leva e anima, Que a fortuna o votara à glória.
Soam Enfim os gritos de triunfo; e o peito Do povo que lutou respira à larga, Como ao que, após árdua subida, chega Ao cimo da montanha, e ao longe os olhos Estende pelo azul dos céus, e a vida Bebe nesse ar mais puro. Farto sangue A vitória custara; mas, se em meio De tanta glória há lágrimas, soluços, Gemidos de viuvez, quem os escuta, Quem as vê essas lágrimas choradas Na multidão da praça que troveja E folga e ri? O sacro bronze que usa Os fiéis convidar à prece, e a morte Do homem pranteia lúgubre e solene,
Ora festivo canta O comum regozijo; e pela aberta Porta dos templos entra a frouxo o povo A agradecer com lágrimas e vozes O triunfo, — piedoso instinto da alma, Que a Deus levanta o pensamento e as graças.
XII
Tu, mancebo feliz, tu bravo e amado, Voa nas asas rútilas e leves Da fortuna e do amor. Como ao indiano, Que, ao regressar das porfiadas lutas, Por estas mesmas regiões entrava, A encontrá-lo saía a meiga esposa,
— A recente cristã, entre assustada E jubilosa coroará teus feitos Coa melhor das capelas que hão pousado Em fronte de varão, — um doce e longo Olhar que inteiro encerra a alma que chora De gosto e vida! Voa o moço à estância Do ancião; e ao pôr na suspirada porta Olhos que traz famintos de encontrá-la, Frio terror lhe empece os membros. Frouxo Ia o sol transmontando; lenta a vaga Melancolicamente ali gemia, E todo o ar parecia arfar de morte.
Qual se pálida a vira, já cerrados Os desmaiados olhos, Frios os doces lábios
Cansados de pedir aos céus por ele, Nuno estacara; e pelo rosto em fio O suor lhe caiu da extrema angústia;
Longo tempo vacila; Vence-se enfim, e entra a mansão da esposa.
XIII
Quatro vultos na câmara paterna Eram. O pai sentado, Calado e triste. Reclinada a fronte No espaldar da cadeira, a filha os olhos E o rosto esconde, mas tremor contínuo De um abafado soluçar o esbelto Corpo lhe agita. Nuno aos dois se chega; Ia a falar, quando a formosa virgem, Os lacrimosos olhos levantando, Um grito solta do íntimo do peito E se lhe prostra aos pés: “Oh! vivo, és vivo! Inda bem... Mas o céu, que por nós vela, Aqui te envia... Salva-o tu, se podes, Salva meu pobre pai!” Estremecendo, Nela e no velho fita Nuno os olhos, E agitado pergunta: “Qual ousado Braço lhe ameaça a vida?” Cavernosa Uma voz lhe responde: “O santo ofício!”
Volve o mancebo o rosto
E o merencório aspecto De dois familiares todo o sangue Nas veias lhe gelou.
XIV
Solene o velho Com a voz, não frouxa, mas pausada, fala: “Vês? Todo o brio, todo o amor no peito Te emudeceu. Só lastimar-me podes, Salvar-me, nunca. O cárcere me aguarda, E a fogueira talvez; cumpri-la, é tempo, A vontade de Deus. Tu, pai e esposo Da desvalida filha que aí deixo, Nuno, serás. A relembrar com ela Meu pobre nome, aplacareis a imensa Cólera do Senhor...” Sorrindo irônico, Estas palavras últimas lhe caem Dos lábios tristes. Ergue-se: “Partamos! Adeus! Negou-me Aquele que no campo Deixa a árvore anciã perder as folhas No mesmo ponto em que as nutriu viçosas, Negou-me ver por estas longas serras Ir-se-me o último sol. Brando regaço A filial piedade me daria Em que eu dormisse o derradeiro sono, E em braços de meu sangue transportado Fora em horas de paz e de silêncio Levado ao leito extremo e eterno. Vive Ao menos tu...”
Um familiar lhe corta O adeus último: “Vamos: é já tempo!” Resignado o infeliz, ao seio aperta A filha, e todo o coração num beijo Lhe transmitiu, e a caminhar começa. Ângela os lindos braços sobre os ombros Trava do austero pai; flores disséreis De parasita, que enroscou seus ramos Pelo cansado tronco, estéril, seco De árvore antiga: “Nunca! Hão de primeiro A alma arrancar-me! Ou se heis pecado, e a morte Pena há de ser da cometida culpa, Convosco descerei à campa fria, Juntos a mergulhar na eternidade.
Israel tem vertido Um mar de sangue. Embora! à tona dele Verdeja a nossa fé, a fé que anima [18] O eleito povo, flor suave e bela Que o medo não desfolha, nem já seca Ao vento mau da cólera dos homens!”
XVI
Trêmula a voz do peito lhe saía. Das mãos lhe trava um dos algozes. Ela
Entrega-se risonha, Como se o cálix da amargura extrema Pelos meles da vida lhe trocassem Celeste e eterna. O coração do moço Latejava de espanto e susto. Os olhos Pousa na filha o desvairado velho. Que ouviu? — Atenta nela; o lindo rosto O céu não busca jubiloso e livre, Antes, como travado de agra pena, Pende-lhe agora ao chão. Dizia acaso Entre si mesma uma oração, e o nome De Jesus repetia, mas tão baixo, Que o coração do pai mal pôde ouvir-lho. Mas ouviu-lho; e tão forte amor, tamanho Sacrifício da vida a alma lhe rasga E deslumbra. Escoou-se um breve tempo De silêncio; ele e ela, os tristes noivos, Como se a eterna noite os recebera, Gelados eram; levantar não ousam Um para o outro os arrasados olhos De mal contidas e teimosas lágrimas.
Nuno, enfim, lentamente e a custo arranca Do coração estas palavras: “Fora Misericórdia ao menos confessá-lo Quando ao fogo do bárbaro inimigo Me era fácil deixar o derradeiro Sopro da vida. Prêmio é este acaso De tamanho lidar? Que mal te hei feito, Por que me dês tão bárbara e medonha Morte, como esta, em que o cadáver guarda Inteiro o pensamento, inteiro o aspectoDa vida que fugiu?” Ângela os olhos Magoados ergue; arfa-lhe o peito aflito, Como o dorso da vaga que intumesce A asa da tempestade. “Adeus!” suspira, E a fronte abriga no paterno seio.
XVIII
O rebelde ancião, domado entanto, Afracar-se-lhe sente dentro d’alma O sentimento velho que bebera Com o leite dos seus; e sem que o lábio
Transmita a ouvidos de homem O duvidar do coração, murmura Dentro de si: “Tão poderosa é essa Ingênua fé, que inda negando o nome Do seu Deus, confiada aceita a morte, E guarda puro o sentimento interno Com que o véu rasgará da eternidade?Ó Nazareno, ó filho do mistério, Se é tua lei a única da vida Escreve-ma no peito; e dá que eu veja Morrer comigo a filha de meus olhos E unidos irmos, pela porta imensa Do teu perdão, à eternidade tua!”
XIX
Mergulhara de todo o sol no ocaso, E a noite, clara, deliciosa e bela, A cidade cobriu, — não sossegada, Como costuma, — porém leda e viva, Cheia de luz, de cantos e rumores, Vitoriosa enfim. Eles, calados, Foram por entre a multidão alegre, A penetrar o cárcere sombrio. Donde ao mar passarão, que os leve às praias Da anciã Europa. Carregado o rosto, Ia o pai; ela, não. Serena e meiga, Entra afoita o caminho da amargura, A custo sofreando internas mágoas Da amarga vida, breve flor como ela, Que inda mais breve a mente lhe afigura. Anjo, descera da região celeste A pairar sobre o abismo; anjo, subia De novo à esfera luminosa e eterna, Pátria sua. Levar-lhe-á Deus em conta O muito amor e o padecer extremo,
Quando romper a túnica da vida E o silêncio imortal fechar seus lábios.
JOSÉ BONIFÁCIO
De tantos olhos que o brilhante lume Viram do sol amortecer no ocaso, Quantos verão nas orlas do horizonte
Resplandecer a aurora?
Inúmeras, no mar da eternidade, As gerações humanas vão caindo; Sobre elas vai lançando o esquecimento
A pesada mortalha.
Da agitação estéril em que as forças Consumiram da vida, raro apenas Um eco chega aos séculos remotos,
E o mesmo tempo o apaga.
Vivos transmite a popular memória O gênio criador e a sã virtude, Os que o pátrio torrão honrar souberam,
E honrar a espécie humana.
Vivo irás tu, egrégio e nobre Andrada! Tu, cujo nome, entre os que à pátria deram O batismo da amada independência,
Perpetuamente fulge.
O engenho, as forças, o saber, a vida Tu votaste à liberdade nossa, Que a teus olhos nasceu, e que teus olhos
Inconcussa deixaram.
Nunca interesse vil manchou teu nome, Nem abjetas paixões; teu peito ilustre Na viva chama ardeu que os homens leva
Ao sacrifício honrado.
Se teus restos há muito que repousam No pó comum das gerações extintas, A pátria livre que legaste aos netos
E te venera e ama,
Nem a face mortal consente à morte Que te roube, e no bronze redivivo O austero vulto restitui aos olhos
Das vindouras idades.
“Vede (lhes diz) o cidadão que teve Larga parte no largo monumento Da liberdade, a cujo seio os povos
Do Brasil te acolheram.
Pode o tempo varrer, um dia, ao longe, A fábrica robusta; mas os nomes Dos que o fundaram viverão eternos,
E viverás, Andrada!”
A VISÃO DE JACIÚCA
Prestes de novo a batalhar, chegavam Os valentes guerreiros. Mas onde ele, O duro chefe da indomável tribo, O senhor das montanhas? Afirmava Tatupeba que o vira, antes da aurora, Erguer-se, e ao longo do vizinho rio, Por algum tempo caminhar calado, Como se o abafara um pensamento E lhe impedira o sono. Vão receio De batalhar? Oh! não! Quase na infância, A torva catadura viu da guerra, Ofício de homens, que aprendeu brincando Com seu pai, extremado entre os guerreiros, E na bravura e na prudência; a frecha Ninguém soubera menear como ele, Nem mais veloz nem mais certeira nunca.
A lentos passos caminhando chega, Enfim, o bravo Jaciúca. Torvo E merencório traz o duro aspecto. “— Vamos (diz ele) a descansar na taba, Entre festas e danças; penduremos As armas nossas, que sobeja há sido A glória, e a doce paz nos chama.” Leve, Surdo rumor entre os guerreiros soa; Vai subindo, é rugido, é já tumulto, Como o grunhir de trajaçus no mato, Que se aproxima e cresce. Jaciúca Olhos quietos pelo campo estende; Seu feio rosto é como a rocha dura Que o raio quebra, mas não lasca o vento. Fecha os lábios e pensativo espera.
Tatupeba, que a raiva a custo esconde, Ergue-se então; crava-lhe os fulvos olhos, Como a afiada ponta de uma frecha. Seu porte, entre os irmãos, semelha à vista Jequitibá robusto; mais que todos, Terror inspira e universal respeito. Ergue-se e fala: — “Longos sóis hei visto, Pelejei muitas guerras; a meu lado Vi cair mais valentes do que folhas Arranca o furacão; mas nunca o ânimo Dos lidadores abalou a palavra Como essa tua; nunca os braços nossos Ficar deixaram nos desertos campos Os ossos não vingados dos guerreiros.
Que gênio mau te insinuou tal crime?”
Assim falando, Tatupeba o solo Com a planta feriu. Os olhos todos Pendem da boca do sombrio chefe. Silencioso Jaciúca ouvira As falas do guerreiro; silencioso E quieto ficou. Após instantes, A fronte sacudiu, como expelindo Idéias más que o cérebro lhe turvam, E a voz lhe rompe do íntimo do peito.
“Ó guerreiros (diz ele), aqui deitados Estivestes a noite, e toda inteira A dormistes de certo; eu, não distante, Do rio à margem a trabalhar comigo, Afiava na mente atra vingança; Até que os frouxos membros descaíram Sobre a macia relva, e um tempo largo Assim fiquei entre vigília e sono. Viam meus olhos ondular as águas, Mas no alheado pensamento os ecos Sussurravam da infância. Um gênio amigo Aos tempos me levava em que no rosto De meu pai aprendi, com frio pasmo, A rara intrepidez, válida herança, Que tanto custa ao pérfido inimigo.
De repente, uma luz pálida e triste Inunda o campo: transparente névoa E luminosa aquilo parecia, Ou baço refletir da branca lua Que nuvens cobrem. Lívido e curvado, Içaíba a meus olhos aparece. Vi-o qual era antes da fria morte; Só a expressão do rosto lhe mudara; Enérgicas não tinha, mas serenas As feições. “Vem comigo!” Assim me fala O extinto bravo; e, súbito estreitando Ao peito o corpo do saudoso amigo, Juntos voamos à região das nuvens. “Olha!” disse Içaíba, e o braço alonga Para a terra. Ó guerreiros! largo espaço Era presa de alheio senhorio. Fitei os olhos mais; e pouco a pouco, Como enche o rio e todo o campo alaga, Umas gentes estranhas se estendiam De sertão em sertão. Presas do fogo As matas vi, abrigo do guerreiro, E ao torvo incêndio e às invasões da morte Vi as tribos fugir, ceder a custo, Com lágrimas alguns, todos com sangue, A virgem terra ao bárbaro inimigo. Mau vento os trouxe de remota praia Aqueles homens novos, jamais vistos De guerreiro ancião, a quem não coube Sequer a glória de morrer contente
E todo reviver na ousada prole. Era o termo da vida que chegara Ao povo de Tupã! Grito de morte Único enchia os ares, — um suspiro De tristeza e terror, que reboava Pelos recessos da floresta antiga E talvez ameigava o peito às feras... Surdos os manitós deixado haviam Os seus fortes heróis; surdos se foram Entre os gênios folgar da raça nova, E rir talvez das lágrimas choradas Pelos olhos das virgens... Oh! se ao menos Fora pranto de livres! Era a morte A menor das angústias; vi curvada E cativa rojar no pó da terra A fronte do guerreiro, agora altiva, Livre, como o condor que frecha as nuvens; Não canitar a cinge, mas vergonha, Melancólico adorno do vencido.
O rosto desviei do estranho quadro. “Olha!” repete o pálido Içaíba. Olhei de novo, e na saudosa taba, Que os nossos arcos defender souberam, Em vez da sombra do piaga santo, Que, ao som do maracá, colhia as vozes Do pensamento eterno, e as infundia No seio do guerreiro, como o fumo Do petum lhe dobrava ímpeto e força, Um vulto descobri de vestes negras, Nua quase a cabeça, e cor de espuma Alguns cabelos raros. Tinha o rosto Alvo e quieto. Em suas mãos sustinha Extenso lenho com dois curtos braços. Ia só; todo o campo era deserto. Nem um guerreiro! um arco! — A tribo? “Extinta!” “A tal palavra, uma pesada sombra A vista me apagou, e pela face Senti rolar a lágrima primeira. O sinistro espetáculo mudara. Ao dissipar-se a nuvem de meus olhos Achei-me junto do vizinho rio, Reclinado como antes, e defronte A pálida figura de Içaíba. “— Torna à taba, me disse o extinto moço; Luas e luas volverão no espaço Antes da morte, mas a morte é certa, E terrível será. Nação bem outra, Sobre as ruínas da valente raça Virá sentar-se, e brilhará na terra Gloriosa e rica. Uma chorada lágrima, Talvez, talvez, no meio de triunfos. Há de ser a tardia, escassa paga Da morte nossa. Poupa ao menos essa Derradeira esperança de guardá-lo Todo o valor para o supremo dia E com honra ceder a estranhas hostes;
Salva ao menos as últimas relíquias Desta nação vencida; não se rasguem Peitos que irmãos ao mesmo sol nasceram E Anhangá fez contrários... Todos eles [19] Poucos serão para a tremenda luta, Mas de sobra hão de ser para chorá-la.”
Assim falara o pálido Içaíba; Alguns instantes contemplou meu rosto, Calado e firme. A cachoeira ao longe Interrompia apenas o silêncio; E eu morto, eu mesmo me sentia morto. Ele um triste suspiro magoado Soltou do peito; os apagados olhos Às estrelas ergueu, sereno e triste, E de novo rompendo o vôo aos ares, Como uma frecha penetrou nas nuvens.”
A GONÇALVES DIAS
Ninguém virá, com titubeantes passos, E os olhos lacrimosos, procurando O meu jazigo...
GONÇALVES DIAS. Últimos Cantos.
Tu vive e goza luz serena e pura.
J. BASÍLIO DA GAMA. Uraguai, c. V.
Assim vagou por alongados climas, E do naufrágio os úmidos vestidos Ao calor enxugou de estranhos lares O lusitano vate. Acerbas penas Curtiu naquelas regiões; e o Ganges, Se o viu chorar, não viu pousar calada, Como a harpa dos êxules profetas, A heróica tuba. Ele a embocou, vencendo Coa lembrança do ninho seu paterno, Longas saudades e míseras tantas. Que monta o padecer? Um só momento As mágoas lhe pagou da vida; a pátria Reviu, após a suspirar por ela;
E a velha terra sua O despojo mortal cobriu piedosa E de sobejo o compensou de ingratos.
Mas tu, cantor da América, roubado Tão cedo ao nosso orgulho, não te coube Na terra em que primeiro houveste o lume Do nosso sol, achar o último leito! Não te coube dormir no chão amado, Onde a luz frouxa da serena lua, Por noite silenciosa, entre a folhagem Coasse os raios úmidos e frios, Com que ela chora os mortos... derradeiras Lágrimas certas que terá na campa O infeliz que não deixa sobre a terra Um coração ao menos que o pranteie.
Vinha contudo o pálido poeta Os desmaiados olhos estendendo Pela azul extensão das grandes águas, A pesquisar ao longe o esquivo fumo Dos pátrios tetos. Na abatida fronte Ave da morte as asas lhe roçara; A vida não cobrou nos ares novos, A vida, que em vigílias e trabalhos, Em prol dos seus, gastou por longos anos, Co’essa largueza de ânimo fadado A entornar generoso a vital seiva. Mas, que importava a morte, se era doce Morrê-la à sombra deliciosa e amiga Dos coqueiros da terra, ouvindo acaso
No murmurar dos rios, Ou nos suspiros do noturno vento, Um eco melancólico dos cantos Que ele outrora entoara? Traz do exílio Um livro, monumento derradeiro Que à pátria levantou; ali revive Toda a memória do valente povo Dos seus Timbiras...
Súbito, nas ondas Bate os pés, espumante e desabrido, O corcel da tormenta; o horror da morte Enfia o rosto aos nautas... Quem por ele, Um momento hesitou quando na frágil Tábua confiou a única esperança Da existência? Mistério obscuro é esse Que o mar não revelou. Ali sozinho, Travou naquela solidão das águas O duelo tremendo, em que a alma e corpo As suas forças últimas despendem Pela vida da terra e pela vida Da eternidade. Quanta imagem torva, Pelo turbado espírito batendo As fuscas asas, lhe tornou mais triste Aquele instante fúnebre! SuaveÉ o arranco final, quando o já frouxo Olhar contempla as lágrimas do afeto, E a cabeça repousa em seio amigo. Nem afetos nem prantos; mas somente A noite, o medo, a solidão e a morte. A alma que ali morava, ingênua e meiga, Naquele corpo exíguo, abandonou-o, Sem ouvir os soluços da tristeza, Nem o grave salmear que fecha aos mortos O frio chão. Ela o deixou, bem como Hóspede mal aceito e mal dormido, Que prossegue a jornada, sem que leve O ósculo da partida, sem que deixe
No rosto dos que ficam, — rara embora, — Uma sombra de pálida saudade.
Oh! sobre a terra em que pousaste um dia, Alma filha de Deus, ficou teu rasto Como de estrela que perpétua fulge! Não viste as nossas lágrimas; contudo O coração da pátria as há vertido. Tua glória as secou, bem como orvalho Que a noite amiga derramou nas flores E o raio enxuga da nascente aurora. Na mansão a que foste, em que ora vives, Hás de escutar um eco do concerto Das vozes nossas. Ouvirás, entre elas, Talvez, em lábios de indiana virgem! Esta saudosa e suspirada nênia:
“Morto! é morto o cantor dos meus guerreiros! Virgens da mata, suspirai comigo!
A grande água o levou como invejosa. Nenhum pé trilhará seu derradeiro Fúnebre leito; ele repousa eterno Em sítio onde nem olhos de valentes, Nem mãos de virgens poderão tocar-lhe Os frios restos. Sabiá-da-praia De longe o chamará saudoso e meigo, Sem que ele venha repetir-lhe o canto. Morto! é morto o cantor de meus guerreiros! Virgens da mata, suspirai comigo!
Ele houvera do Ibaque o dom supremo De modular nas vozes a ternura, A cólera, o valor, tristeza e mágoa, E repetir aos namorados ecos Quanto vive e reluz no pensamento. Sobre a margem das águas escondidas, Virgem nenhuma suspirou mais terna, Nem mais válida a voz ergueu na taba, Suas nobres ações cantando aos ventos, O guerreiro tamoio. Doce e forte, Brotava-lhe do peito a alma divina. Morto! é morto o cantor dos meus guerreiros! Virgens da mata, suspirai comigo!
Coema, a doce amada de Itajuba, Coema não morreu; a folha agreste Pode em ramas ornar-lhe a sepultura, E triste o vento suspirar-lhe em torno; Ela perdura a virgem dos Timbiras, Ela vive entre nós. Airosa e linda, Sua nobre figura adorna as festas E enflora os sonhos dos valentes. Ele, O famoso cantor, quebrou da morte O eterno jugo; e a filha da floresta Há de a história guardar das velhas tabas Inda depois das últimas ruínas.
Morto! é morto o cantor dos meus guerreiros! Virgens da mata, suspirai comigo!
O piaga, que foge a estranhos olhos, E vive e morre na floresta escura, Repita o nome do cantor; nas águas Que o rio leva ao mar, mande-lhe ao menos Uma sentida lágrima, arrancada Do coração que ele tocara outrora, Quando o ouviu palpitar sereno e puro, E na voz celebrou de eternos carmes. Morto! é morto o cantor dos meus guerreiros! Virgens da mata, suspirai comigo!
OS SEMEADORES [20]
(Século XVI)
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