понедельник, 18 декабря 2017 г.

Gazeta de Holanda - Poesia - Machado

       




1.º DE NOVEMBRO DE 1886.

Voilà ce que l'on dit de moi Dans la “Gazette de Hollande”.

Um doutor da mula ruça, Caolho, coxo e maneta, É o homem que se embuça No papel desta gazeta.
Gazeta que, se tivesse Outra forma, outro formato, Pode ser que merecesse Vir com melhor aparato.
Mas é modesta, não passa De uma folha de parreira, Que dá uva, que dá passa, Que dá vinho e borracheira.
Traz programa definido, Para entrar no grande prélio; Nem bemol, nem sustenido, Nem Caim, nem Marco-Aurélio.
Não traz idéias modernas, Nem antigas; não traz nada. Traz as suas duas pernas, Uma sã, outra quebrada.
E vem, como é de ciência, Entre muletas segura, A muleta da inocência, E a muleta da loucura.
Se uma não pega, outra pega, E fica o corpo amparado; Se para um lado escorrega, Fica-lhe sempre outro lado.
De modo que, quanto diga, Seja ou não o que a lei manda, Há de achar entrada amiga Esta Gazeta de Holanda.
Que traga idéias a folha Liberal que se anuncia, Que as espalhe, que as escolha, Como a Reforma fazia.
Vá que seja — posto seja Tarefa das mais reversas, Fazer uma só igreja, De tantas seitas diversas.
A prova é que, ainda agora, Já pronta a bagagem sua, Somente esperando a hora De sair a folha à rua,
Feito um capítulo apenas, De tão diversos capítulos, E, contando boas penas, Já traz a folha dois títulos.
Voz da Nação, ou — Gazeta Nacional; só falta a escolha. Já principia a marreta, Antes de sair a folha.
Eu cá, perfeita unidade. Ora aprovo, ora contesto, Sem que haja necessidade De ouvir protesto e protesto...
Exemplo: ao ler que se trata De fazer um edifício Para o júri: — colunata, Vasto e grego frontispício,
E que esta idéia bizarra Nasceu mesmo agora, agora, Quando foi ali à barra Uma distinta senhora;
Quando a afluência de gente Era tal, que o magistrado
Teve de ir incontinente Pedir sabão emprestado;
Comigo disse: — Bem feito Que a Joaninha expirasse De uma moléstia do peito, E que a Eduarda cegasse.
Só assim tínhamos prédio Para um tribunal sem nada; Não foi morte, foi remédio; Foi vida, não foi pancada.
Pangloss, o doutor profundo, Mostra que há grande harmonia Entre as cousas deste mundo, Entre um dia e outro dia;
Que os narizes foram dados Para os óculos; portanto, Trazem óculos pousados... Pangloss é o meu padre-santo.
Logo, se uma e outra escrava Brigaram sem sentimento, A razão de ação tão brava Foi termos um monumento.
Neste ponto o ponto pingo, E despeço-me no ponto Em que cada novo pingo, Já não é ponto, é posponto.
N.° 2
5 DE NOVEMBRO DE 1886.
Voilà ce que l'on dit de moi Dans la “Gazette de Hollande”.
Muito custa uma notícia! Que ofício! E nada aparece, Que canseira e que perícia! Que andar desde que amanhece!
E tu, leitor sem entranhas, Exiges mais, e não vês Como perdemos as banhas Em te dar tudo o que lês.
És assim como um janota De maneiras superfinas,
Que não sabe o preço à bota Com que cativa as meninas.
Agora mesmo, buscando Saber de associação Que se deu ao venerando Ofício de proteção
Aos animais — não sabia Onde achasse os documentos Dessa obra de simpatia, Para transmiti-la aos ventos.
Achei quatrocentas atas De reuniões semanais, Ofícios, notas e datas, Tudo espalhado em jornais.
Mas das ações praticadas Em favor da bicharia, E das vitórias ganhadas, Nada disso conhecia.
Então lembrei-me de um burro, Sujeito de algum valor, Nem grosseiro nem casmurro, Menos burro que o senhor.
E pensei: “Naturalmente Traz toda a historia sabida; É burro, há de ter presente A proteção recebida”
Lá fui. O animal estava Em pé, com os olhos no chão, Tinha um ar de quem cismava Cousas de ponderação.
Que cousas, porém, que assunto Tão grave, tão demorado, Ocupava o seu bestunto, Nada lhe foi perguntado.
Talvez, ao ver-se assim magro, Cativo como um nagô, Pensasse no velho onagro, Que foi seu décimo avô.
Entrei, dizendo-lhe a causa Daquela minha visita; Ele, depois de uma pausa, Como gente que medita,
Respondeu-me: — Em frases toscas Mas verdadeiras, direi, Enquanto sacudo as moscas, Tudo o que sobre isto sei.
Juro-te que a sociedade, Contra os nossos sofrimentos, Tem obras de caridade, Tem leis, tem regulamentos.
Tem um asilo, obra sua, Belo, forte, amplo e capaz; Já se não morre na rua, Dá-se ali velhice e paz.
Gozam dessa benta esmola, Em seus quartos separados, Mais de uma onça espanhola, E muitos gatos-pingados.
Todos os galos na testa Acham lá milho e afeição; Lá vive tudo o que resta Da burra de Balaão.
Mora ali a vaca fria. E mais a cabra Amaltéia, Única e só companhia Do pobre leão de Neméia.
Não posso fazer elipse Dos bichos caretas, nem Da besta do Apocalipse, Que ali seu abrigo têm.
E o cisne de Leda, e um bode Expiatório, e o cavalo De Tróia, escapar não pode; Mas há outros que inda calo.
Peguei no papel, e a lápis Escrevi tudo, e escrevi Mais o nome do boi Ápis, Que ele inda me disse ali.
E perguntei: — Meu amigo, Por que é que a tantos amaina O tempo, naquele abrigo, E você anda na faina?
Ele, burro circunspecto, Asno de boa feição,
Tirou de fino intelecto Esta profunda razão:
— Se eu estivesse ali junto Com outros da minha banda, Você não tinha este assunto Para a “Gazeta de Holanda”.
Vá consolado: que importa Que eu viva cá fora ou lá? Qualquer porta há de ser porta, Para sair; vá, vá, vá.
E enquanto assim me dizia frases que chamava toscas, Chagas de pancadaria Iam convidando as moscas.
Lá o deixei como estava, Em pé, com os olhos no chão, Parecendo que cismava Cousas de ponderação.
N.° 3
12 DE NOVEMBRO DE 1886.
Voilà ce que l'on dit de moi Dans la “Gazette de Hollande”.
Aqui está, em folhas várias, Uma cousa que se presta A notas e luminárias. Aqui vai a cousa, é esta:
— Na rua Larga se aluga, Em bom estado, uma beca. — Parece uma simples nuga, E é mais que uma biblioteca.
Eis aqui o que eu diria: Há nesta beca alugada Uma idéia que devia, Há muito andar publicada.
Primeiramente, repare Que esta beca não se vende Por preço barato ou caro; É que, alugada, mais rende.
Comprá-la, era possuí-la; Alugá-la, é só trazê-la,
Usá-la e restituí-la, Sem rompê-la ou descosê-la.
Não haverá neste caso Um sintoma? Não parece Que a beca tomada a prazo Uma lição oferece?
Que, sem correr Seca e Meca, Muita gente delicada, Assim como traz a beca, Traz a ciência alugada?
Que, sendo esta leve e pouca, Apenas meia tigela Não chega a entornar da boca, E pouco pedem por ela?
Que, inda mesmo sendo um quarto De tal tigela, e não meia, Parece falar de fato Quem fala de boca cheia?
E que esse pouco, bastando A que o locatário almoce, É tolice andar estando Ciência de sobreposse?
Nada sei; mas ofereço A toda a pessoa séria Este problema de preço E passo a outra matéria.
Escreve um correspondente Cholera-Morbus chamado: “Conto que proximamente, Malvólio, estou ao teu lado.
“Aqui nesta Buenos-Aires, Terra de belas meninas... Que salero e que donaires! Que formosas Argentinas!
“Aqui, por mais que me esbofe, Levo uma vida vadia; Esperava um rega-bofe E vou de pança vazia.
“Quando mato uma pessoa, Surge-me logo uma junta, Que a declara viva e boa, Por mais que a deixo defunta.
“Negam-me tudo; o meu ato, O nome, e até a existência; Chamam-me simples boato Sem razão nem consistência,
“Aborrecido com isto, Determinei ir-me embora Por esse mundo de Cristo; Estou aqui, estou lá fora.
“Aí me vou, caro mio, Só não sei de que maneira, Se diretamente ao Rio, Se atravessando a fronteira.
“Ir por água é arriscado A dar com o nariz na porta; Se achar o porto trancado, Eu fico de cara torta.
“Enfim, veremos... Espero Que, de um modo ou de outro modo, Lá, entre; e aqui te assevero Que com pouco me acomodo.
“Saudade, tenho saudade De outr'ora. Há mais de trinta anos Que andei por essa cidade Com grandes passos ufanos.
“Mudou tudo? Existe ainda O teatro Provisório? Onde está Lagrua, a linda Que teve um lapso amatório?
“O gordo Tatti? O magano Ferrari? A Charton divina? Vive ainda o João Caetano? Vive ainda a Ludovina?
“A Loja do Paula Brito Mudou de dono ou de praça? Paranhos, grave e bonito, Vive ainda? Vive o Graça?
“Mora ainda no Rocio Muita família? O teatro Tem inda o mesmo feitio? São ainda os mesmos quatro?
“Publica-se inda o elegante Mercantil? Que faz? Que escreve Maneco? e o Muzzio? e o brilhante
Alencar de estilo leve?
“Vou vê-los todos, e juro Em honra aos dias passados, Que ao meu golpe áspero e duro Serão poupados, poupados...”
N.° 4
17 DE NOVEMBRO DE 1886.
Voilà ce que l'on dit de moi Dans la “Gazette de Hollande”.
Que será do novo banco? Interroga toda a gente; Respondem uns que um barranco, Outros dizem que uma enchente.
Certo é que andaram milhares De contos, contos e contos, Uns por terra, outros por mares Contos de todos os pontos.
Caíam como sardinhas, Pulavam como baleias; Aí belas ambições minhas! Ai sonho, que me incendeias!
E o Holman, o forte e ledo Inglês abrasileirado, Contemplava o Figueiredo, Que olhava, grave e barbado.
Supunha que muita gente Viesse; mas gente tanta Não cuidavam certamente... Obra abençoada e santa!
Da empresa, ora começada, Há quem diga maravilhas; Muita idéia cogitada; Ouro a granel, ouro em pilhas.
Circulação recolhida, Câmbio a vinte e seis ou sete, Mudança da antiga vida, Outra cara, outro topete.
Ai, sonho! ai, diva quimera! Pudesse eu entrar na dança! Ai viçosa primavera!
Ai verde flor da esperança!
Nem eu, nem o meu compadre Eusébio Vaz Quintanilha, Que, por mais que corra e ladre, Nenhum grande emprego pilha.
Que, para matar a fome, Vem matá-la em minha casa, Sem poder dizer que come, Mas que destrói, mata, arrasa.
Pobre Quintanilha! Um anjo! Coitado! Afinal parece Que lá teve algum arranjo Que lhe dá certo interesse.
Há já dias que o não via; Onde iria o desgraçado? Quem sabe se morreria, Faminto, desesperado?
Eis que ontem, quando passava Pela rua da Quitanda, E nos negócios cismava Desta Gazeta de Holanda,
Lá no outro lado da rua Uma figurinha pára; Trazia a cabeça nua, Bacia, opa e uma vara.
Era o pobre... Deu comigo E veio, em quatro passadas, Ao seu delicado amigo Apertar as mãos pasmadas.
— “És andador de irmandade? Aprovo os teus sentimentos De devoção, de piedade... Toma um níquel de duzentos”.
— “Não, Malvólio, não, não ando Como um andador professo...”
— “Andador de contrabando?”
— “Também não; ouve, eu t’o peço.
“Esta opa, esta bacia Alugo a alguma Irmandade: Dou cinco mil réis por dia, E corro toda a cidade.
“Varia o lucro, segundo
Dou mais ou menos às pernas; Não escandalizo o mundo E mato as fomes eternas.
“Rende-me oito ou nove, e há dias De dez mil réis, dez e tanto. Crês? Já faço economias, Já deito algum cobre ao canto.
“É este o meu banco. O fundo É variável, mas certo; Deus dá banco a todo o mundo; Uns vão longe, outros vão perto.
“Eu cá não ando com listas De ações, nem faço rateio; Todos são meus acionistas, Gordo ou magro, lindo ou feio.
“Que um só vintém esmolado Vale no céu muitos contos; E há muito vintém cobrado... Vinténs de todos os pontos!”
N.° 5
21 DE NOVEMBRO DE 1886.
Voilà ce que l'on dit de moi Dans la “Gazette de Hollande”.
Com franqueza, esta Bulgária Vai-me esgotando a paciência; Lembra a ilha Baratária, Onde, após uma audiência,
Sancho, que naquele dia Começara a governá-la, Foi, com muita cortesia, Levado a uma grande sala.
Tinha uma fome de rato O governador recente, E viu prato, e prato, e prato, Prato de atolar o dente.
Quanto manjar, quanto molho, Não direi, por mais que diga; Só a vista enchia o olho... Restava encher a barriga.
Mas tão depressa acudia
Algum servo respeitoso, Trazendo-lhe uma iguaria De cheirinho apetitoso,
Um doutor, que se postara Ao lado, sem mais demora Fazia um gesto co’a vara, E ia-se a iguaria embora.
Afinal, pergunta o Sancho Que era aquela caçoada. Responde o doutor, mui ancho, Que nada, não era nada.
Que, como ele tinha a cargo A sua saúde e vida, Cabia-lhe pôr embargo A uma ou outra comida.
— “Bem, então dê-me essas belas, Maravilhosas perdizes”.
— “Livre-o Deus de tocar nelas, Nem de chegar-lhe os narizes”.
— “Mas, aquele gordo coelho Espero que me não negue”.
— “Senhor, o melhor conselho É que nem sequer lhe pegue”.
— “Naquele prato travesso Cuido que há olha-podrida”.
— “Não coma, por Deus lh'o peço! Aquilo espatifa a vida.
“Deixe Vossa Senhoria A cônegos e a reitores Essa péssima iguaria Que tanto estraga os humores”.
E o pobre Sancho com fome, Por mais que lhe dê na gana, Tudo pede e nada come, Até que se desengana.
Assim anda a tal Bulgária; Elege, mas não elege, Pois, como na Baratária, Há um doutor que a protege.
“Este príncipe!” — “Não presta; Faz-lhe mal aos intestinos”.
— “Est'outro?” — “Escolha funesta”.
— “Aquel'outro?” — “Um valdevinos.
“Para os seus humores basta Este da Mingrélia; é moço, Boa cara e boa casta; Demais, pertence ao colosso”.
E a Bulgária, se há de os braços Estender e recebê-lo, Fazendo assim com abraços, Em vez de a murros fazê-lo,
Timeos Danaos, et dona Ferentes, pensa consigo; E com ar de valentona, Recusa o presente amigo.
Bulgária dos meus pecados, Imita o meu pobre Sancho, Que, vendo os pratos negados, Agarrou um pão a gancho.
Um pão seco e frescas uvas, Acaba essas longas bodas. Já tens véu, grinalda e luvas, Escolhe uma vez por todas.
E, tomando a liberdade De te chamar D. Amélia (Ó rima! Ó necessidade!) Bulgária, escolhe o Mingrélia!
N.º 6
28 DE NOVEMBRO DE 1886.
Voilà ce que l’on dit moi Dans la “Gazette de Hollande”.
“Tu és Cólera, e sobre esta Doença amiga edifico A minha igreja, e uma sesta Perpétua, em ficando rico”.
Assim me dizia o Bento Da Silva Luz, boticário, Inventor de um cozimento, Inócuo e pecuniário.
E, vendo que eu o escutara, Cheio de alegria e riso, Como alguém que se prepara A ter igual paraíso,
Quis saber qual fosse a causa Daquela expressão ridente; Eu, depois de certa pausa, Disse-lhe naturalmente:
— “Quando cogito em que a peste Pode entrar por nossa casa, Cuido no favor celeste Que trará pendente na asa.
Deu ela entre alienados De Buenos-Aires, matando Metade dos atacados, E nova gente atacando.
Cada telegrama conta Dois, três, cinco, oito, dez loucos, Que ficam de mala pronta E vão deixando isto aos poucos.
Não tarda que o derradeiro Hóspede saia do asilo E fique o edifício inteiro Despovoado e tranqüilo.
E calcule agora a soma De palácios encantados, Feitos de nácar e goma, Telhados e destelhados;
Calcule os pássaros feios De asas longas, longas pernas, Que enchem por todos os meios As frias noites eternas;
Calcule as meias idéias Feitas de meias lembranças, E a meia luz das candeias, E a meia flor de esperanças;
E as gargalhadas sem boca, Ouvidas perpetuamente, Ora claras, ora roucas, E as conversações sem gente.
Farrapos de consciência, Cozidos pelo delírio, E uma enorme concorrência De patuscada e martírio;
Calcule agora essa vida De doidos enclausurados,
De repente interrompida, E os corpos amortalhados.
Nem sempre a peste é moléstia, Sacramentos e ataúde; Aos doidos vale uma réstia De inesperada saúde.
Por isso é que, quando penso Naquele monstro terrível, Acho um beneficio imenso, Que o torna bom e aprazível.
E digo: Oh! abençoado Destino que tal prescreve! Que haja ao pé do alienado A epidemia que o leve!”
N.° 7
6 DE DEZEMBRO DE 1886.
Voilà ce que l'on dit de moi Dans la “Gazette de Hollande”.
A lei darwínica é certa Inda em acontecimentos... Não fiquem de boca aberta, Vão vê-lo em poucos momentos.
Há nelas a mesma luta Pela vida, e de tal arte A crua lei se executa, Que é a mesma em toda a parte.
Há seleção, persistência Do mais capaz ou mais forte, Que continua a existência, E os outros baixam à morte.
Demonstro: — O famoso caso Da escola e pancadaria, Caso que pôs tudo raso, Tudo, até a epidemia.
Tal foi ele que, tomando Todo ou quase todo o espaço, Foi de um trago devorando Quanto lhe embargava o passo.
Escapou a Cantagalo, Por trazer comprido bico,
Unha capaz de matá-lo, Peito largo e sangue rico.
Mas, por um só que resiste, Quantos passaram calados Na penumbra vaga e triste Dos seres mal conformados!
Cito dois — um pequenino, Um telegrama celeste, Oficial e argentino Sobre os destroços da peste.
Dava os óbitos do dia, De modo tão encoberto, Que o duvidoso morria E só escapava o certo.
— “Rua tal: um duvidoso, Outro duvidoso ao lado...” Pois, com ser tão engenhoso, Foi lido e não foi guardado.
Segundo caso: o de Arantes, Arantes, a testemunha, Que os juízes implicantes Cuidam de pegar à unha.
Porquanto há necessidade De ouvir-lhe a palavra de ouro, Para saber a verdade Do que houve no Matadouro.
Seja pró ou seja contra Essa testemunha rara, Onde é, onde é que se encontra? Onde vive? Onde é que pára?
Mandou-se às partes remotas Da cidade, e logo ao centro; Foram ao fundo das botas E não o acharam lá dentro.
Em Minas? Vá precatório, Rápido, para intimá-lo ... Esforço inútil e inglório! Voltou sem lograr achá-lo.
Não sendo encontrado em Minas Nem pelas matas cerradas, Foram às ilhas Malvinas, Ao Congo e ao reino das Fadas.
E bradaram-lhe: — “Ó Arantes, Chamado como quem sabe O nome aos bois pleiteantes, E o mais que no caso cabe;
“Arantes, onde respiras? Onde estás? Onde te escondes? Na trama das casimiras? Chamo-te e não me respondes.
“Talvez no centro da Arábia, Talvez na rua da Ajuda, Talvez estudando a Fábia, Talvez adorando a Buda.
“Donde quer que estejas, corre, Acode ao nosso chamado: Vem, que, se não corres, morre O processo começado”.
E passou esse episódio Sem fazer maior barulho Do que as saúdes de um bródio Na Gávea ou no Pedregulho.
Porque nos próprios eventos A lei darwínica é certa. Provei-o em poucos momentos, Não fiquem de boca aberta.
N. 8
14 DE DEZEMBRO DE 1886.
Voilà ce que l'on dit de moi Dans la “Gazette de Hollande”
E disse o Diabo: — “Fala, Que queres ser nesta vida? Antonino ou Caracala? Capucho ou jardins de Armida?
“Escolhe, e verás, Malvólio, Tudo o que quiseres; pede Um sólio, e terás um sólio, Pede um culto, e és Mafamede”.
E eu, respondendo-lhe, disse Que nem tronos nem altares; Que, na minha mandriice, Tinha sonhos singulares.
Ou antes, um sonho apenas, Um só desejo, um só, único, Mais velho que a velha Atenas, Mais velho que um vintém púnico.
Não era ter a coroa Do Egito nem da Bulgária, Nem ver as moças de Goa, Nem ter os beijos da Icária,
Nem dormir o dia inteiro Em tapetes persianos, Sentindo o vento fagueiro De numerosos abanos.
Digo abanos meneados Por muitas damas formosas, Feitos de fios delgados De palma, e plumas, e rosas.
Nem comer em pratos de ouro Figos secos da Turquia, Acompanhados do louro Néctar que há na Andaluzia.
Nem possuir as estrelas Que são tão minhas amigas, Para um dia convertê-las Em meias-dobras antigas.
Pois tudo isso, e o mais que pode Entrar no mesmo cortejo Duvido que se acomode Ao meu íntimo desejo.
Sabes tu o que eu quisera? Quisera ser cartomante, Dizer que espere ao que espera, E dizer que ame ao amante.
Saber de cousas perdidas, Saber de cousas futuras, De verdades não sabidas, De verdades não maduras.
Se uma senhora é amada, Saber de cousas futuras, De verdades não sabidas, De verdades não maduras.
Se uma senhora é amada, Ou se há lá na costa mouras; Se a costureira — casada —
Chega a depor as tesouras.
Quem é certo moço que anda De chapéu branco e luneta, E algumas vezes lhe manda Lembranças por uma preta.
Se a mulher de um diplomata Vive enredando as pessoas... Se há de esperar certa data... Se as filhas hão de ser boas...
Onde pára uma pulseira, Um recibo, um cachorrinho... Se a neta da lavadeira Bifou algum colarinho...
Se há de morrer de um inchaço Que traz na perna direita... Ou se a luxação de um braço Pode deixá-la imperfeita...
Tudo isso, e o mais que não cabe Em verso rápido e breve, E que a cartomante sabe, Sabe, conta, e não escreve.
É o meu desejo. E tenho Que, se essa cousa me ensinas, Serei, com o meu engenho, O doutor destas meninas,
Que a nós outros coube em sorte Política e loteria, Cousas que têm, como a morte, Mistério e melancolia.
Mas que hão de fazer as damas Com a alma incendiada Das mesmas secretas flamas E ao mesmo abismo inclinada?
Procuram timidazinhas Aquelas claras vivendas E crescem as adivinhas, Não dão para as encomendas.
Pois se tu, Diabo amigo, Me pões capelo de mestre, Juro-te que dás comigo No paraíso terrestre.
Cá virão as Evas novas,
Inquietas, desordenadas, Pedir-me, com ou sem provas, As verdades mascaradas.
E olha que farei no ofício Notáveis melhoramentos, Tapetes, largo edifício, E o preço — mil e quinhentos.
N.° 9
21 DE DEZEMBRO DE 1886.
Voilà ce que l'on dit de moi Dans la “Gazette de Hollande”.
À Carmen Silva, à rainha Da Rumânia, à delicada, Egrégia colega minha, Pelas musas laureada,
Pobre trovador do Rio, Cantor da pálida lua, Esta breve carta envio, E aguardo a resposta sua.
Note bem que lhe não falo Das suas lindas novelas, Nem do plácido regalo Que nos dá com todas elas.
Não, augusta e bela moça, Não é prosa nem poesia O meu assunto ... Ouça, ouça, Verá que é sensaboria.
Cá se soube que um partido, Que há muito não dava cacho, Após combate renhido, Tomou ao outro o penacho.
Fez-se isso eleitoralmente; A gente que não queria O partido então vigente, Mudou de cenografia.
Se fez bem ou mal, lá isso É com ela; a culpa inteira Pertence-lhe de o feitiço Virar contra a feiticeira.
Mas, como aqui neste canto,
Não há tal eleitorado, Que faça nunca outro tanto, E pense em cousas do Estado;
E também porque isto, às vezes, Está em qualquer cousa (adágio, Que herdamos dos portugueses, E tem o nosso sufrágio),
Lembrou-me que poderia Obter, por seu intermédio, Para uma tal embolia O apropriado remédio.
Serão pastilhas? xarope? Pílulas de qualquer cousa? Um cozimento de hissope? Fricções de madeira e lousa?
Seja isto ou seja aquilo, Peço a Vossa Majestade Uma amostra, um frasco, um quilo Para ensaiar na cidade.
Porque, como ora se trata De uma operação sabida, Que a gente que se maltrata Torna a pôr amada e unida,
Operação que dissolve Os grupos mais separados, E rapidamente absolve Todos os ódios passados;
Quisera, logo que esteja Toda a obra recomposta, E esta liberal igreja De novo aos fiéis exposta,
Quisera ver se, tomando A droga rumaica um dia, Chegaríamos ao mando Pela mesma e larga via.
De outro modo ficaremos Nestas náuticas singelas De largar o leme e os remos E abrir à fortuna as velas.
Eia, pois, augusta musa, Mande-me o remédio santo, E não vos concedo escusa; Quero tirar o quebranto.
Quero ver se, finalmente, Depois de tão larga espera, A nossa eleitoral gente É gente, não é quimera.
Para que depois se queixe De si e das culpas suas, E por uma vez se deixe De murmurar pelas ruas.
Vede, flor das maravilhas, Como esta alma pede e roga: Mandai-me as vossas pastilhas, Pílulas ou qualquer droga.
N.º 10
10 DE JANEIRO DE 1887.
Voilà ce que l’on dit de moi Dans la “Gazette de Hollande”.
Depois de férias tão longas; Tão docemente cumpridas, Ó musa, minhas candongas, Voltemos às nossas lidas.
Assim faz a Pátria, às vezes, E é certo que não estoura; Descansa um mês ou dois meses O nosso C. B. de Moura.
E a Pátria, meia enfadada Daquelas extensas férias, Volta mais fortificada Aos combates e às pilhérias.
Eia, pois, minha gorducha, Vê que recomeça a aurora, Puxa daqui, puxa, puxa, Vamos trabalhar lá fora.
E antes de tudo, inclinando O gesto a todos os lados, Vai a todos desejando Plácidos dias folgados.
Desejarás uma boa Vereança aos cariocas, Que se não esgote à toa, Em longas brigas e mocas;
Que eleja pacatamente, Sem atos tumultuários, O seu vice-presidente E os restantes comissários.
Pouco calor, pouca chuva, Nenhuma peste que assole, Algum vinho feito de uva, E menos gente que amole.
Grandes bailes mascarados E passeatas nas ruas, Câmaras de deputados Sem as discussões tão cruas.
Boatos, sobre boatos, De modo que quem passeie Por esses bonds ingratos Tenha cousa que recreie.
E mais que tudo, meu anjo; Anjo meu do meu sacrário, Desejo um bonito arranjo Ao nosso estafado erário.
Não sei se leste a mensagem De Cleveland, um documento De americana homenagem Lá, para o seu parlamento.
Pois conta-se aí (por esta Luz do céu minh'alma jura Que não é peta funesta, Mas pura verdade, pura);
Conta-se que a renda é tanta Que urge cortar-lhe os babados, Que é demasiada a manta Para tão vastos Estados.
Que, se vão nessa carreira, Pagam aqueles senhores Em breve a dívida inteira, E ficarão sem credores.
Depois vem maior excesso De renda, e será tamanho Que não haverá processo De o dar a melhor amanho,
Porque ou fica no tesouro, Inútil, mudo e parado,
Ou saem carradas de ouro Para os delírios do Estado.
Ora bem, estes fenômenos Dados como desastrosos, Terríveis paralipômenos De grandes livros lustrosos,
Hás de pedi-los, amiga, Mas pedi-los de maneira Que uma segunda barriga Coma sem dor da primeira.
Es decir, que aquela caixa Que ronca de tanta altura, Se quiser ficar mais baixa Tem receita mais segura:
Pegue em si, tire metade E verá como lhe pego, Pego-lhe com ansiedade, Com ansiedade de cego.
E digo ao Tesouro nosso
— Amigo, aqui tens dinheiro; Precisas deles, aqui posso Dá-lo às tuas mãos inteiro.
Vê tu que singular obra A deste mundo peralta, Geme um — pelo que lhe sobra, E outro — pelo que lhe falta.
N.º 11
20 DE JANEIRO DE 1887
Voilà ce que l’on dit moi Dans la “Gazette de Hollande”.
Cousas que cá nos trouxeram De outros remotos lugares, Tão facilmente se deram Com a terra e com os ares,
Que foram logo mui nossas Como é nosso o Corcovado, Como são nossas as roças, Como é nosso o bom-bocado.
Dizem até que, não tendo Firme a personalidade,
Vamos tudo recebendo Alto e malo, na verdade.
Que é obra daquela musa Da imitação, que nos guia, E muita vez nos recusa Toda a original porfia.
Ao que eu contesto, porquanto A tudo damos um cunho Local, nosso; e a cada canto Acho disso testemunho.
Já não falo do quiosque, Onde um rapagão barbado Vive... não digo num bosque, Que é consoante forçado,
Mas no meio de um enxame (É menos mau) de cigarros, Fósforos, não sei se arame; Parati para os pigarros;
Café, charutos, bilhetes Do Pará, das Alagoas, Verdadeiros diabretes, E outras muitas cousas boas.
Mas a polca? A polca veio De longas terras estranhas, Galgando o que achou permeio, Mares, cidades, montanhas.
Aqui ficou, aqui mora; Mas de feições tão mudadas, Que até discute ou memora Cousas velhas e intrincadas.
Pusemos-lhe a melhor graça, No título, que é dengoso, Já requebro, já chalaça, Ou lépido ou langoroso.
Vem a polca: Tire as patas, Nhonhô! — Vem a polca: Ó gentes! Outra é: — Bife com batatas! Outra: Que bonitos dentes!
—Ai, não me pegue, que morro!
— Nhonhô, seja menos seco!
— Você me adora? — Olhe, eu corro!
— Que graça! — Caia no beco!
E como se não bastara Isto, já de casa, veio Cousa muito mais que rara, Cousa nova e de recreio.
Veio a polca de pergunta Sobre qualquer cousa posta Impressa, vendida e junta Com a polca de resposta.
Exemplo: Já se sabia Que esta câmara apurada, Inda acabaria um dia Numa grande trapalhada.
Chega a polca, e, sem detença, Vendo a discussão, engancha-se, E resolve: — Há diferença?
— Se há diferença, desmancha-se.
Digam-me se há ministério, Juiz, conselho de Estado, Que resolva este mistério De modo mais modulado.
É simples, quatro compassos, E muito saracoteio, Cinturas presas nos braços, Gravatas cheirando o seio.
— Há diferença? diz ela. Logo ele: — Se há diferença, Desmancha-se; e o belo e a bela Voltam à primeira avença.
E polcam de novo: — Ai, morro!
— Nhonhô, seja menos seco!
— Você me adora? — Olhe, eu corro!
— Que graça! Caia no beco!
Desmancha, desmancha tudo, Desmancha, se a vida empaca. Desmancha, flor de veludo, Desmancha, aba de casaca!
N.° 12
5 DE FEVEREIRO DE 1887.
Voilà ce que l'on dit de moi Dans la “Gazette de Hollande”.
Quem diria que o Cassino, Onde a fina flor se ajunta, Ficaria tão mofino, Que é quase cousa defunta?
Aqueles lustres brilhantes, Que viram colos e braços, Pares e pares dançantes, E os ardores e os cansaços;
Que viram andar em valsas, Quadrilhas, polcas, mazurcas, Moças finas como as alças, Moças gordas como as turcas;
Que escutaram tanta cousa Falada por tanta gente, Que eternamente repousa, Ou geme velha e doente;
Que viram ir tanta moda De toucados e vestidos, Vestidos de grande roda, E vestidos escorridos;
Ministros e diplomatas, E outros hóspedes ilustres, E sábios e pataratas... Ó vós, históricos lustres,
Que direis vós desse estado, Cassino a beira de um pego; Melhor direi pendurado De um prego, lustres, de um prego?
Deve até o gás, aquele Gás que encheu os vossos bicos, Que deu vida, em tanta pele, A tantos colares ricos.
Deve ordenados, impostos, E gastos tão incorretos, Que até não foram expostos Por diretores discretos.
E vede mais que há ruínas No edifício, e é necessário Colher muitas esterlinas Para torná-lo ao primário.
E há mais, há a idéia nova De alguns acrescentamentos, É pôr o Cassino à prova
Com outros divertimentos.
Oxalá que a cousa saia Como se deseja. Entanto Posto que a reforma atraia, Acho outro melhor encanto.
Não basta que haja bilhares, Conversações e leituras Partidas familiares, E algumas outras funduras.
Preciso é cousa mais certa, Cousa que dê gente e cobres, Disso que chama e que esperta Vontades ricas e pobres!
Não digo elefante branco, Nem galo de cinco pernas, Nem a ossada de um rei franco, Nem luminárias eternas.
Mas há cousa que isso tudo Vale, e vale mais ainda, Cousa de mira e de estudo, Cousa finda e nunca finda.
Que seja? Um homem. E que homem? Um homem de Deus, um Santos, Que entre as dores que o consomem Não esquece os seus encantos.
Esse general que estava Há pouco em Paris, e voa Quando apenas se curava. Voa por mais que lhe doa,
Voa à pátria, onde uns pelintras, A quem confiara o Estado, Para ir ver as suas Cintras, E tratar-se descansado,
Entenderam que podiam Passos de pouco préstimo Governar, e que o fariam, Como seu, o que era empréstimo.
Homem tal, que mais não sente Que a sede do eterno mando, Que, inda prostrado e doente, Quer morrer, mas governando,
Olhe o Cassino, valia
Algum esforço em pegá-lo No dia, no próprio dia Em que passasse, e guardá-lo.
Pois tão depressa a Assembléia Oriental e aterrada Soubesse disso — uma idéia Seria logo votada.
Vejam que idéia e que tino: Que anualmente o seu tesouro Pagasse ao nosso Cassino Trezentos mil pesos de ouro,
Quando à velha sociedade Particular encomenda De guardar nesta cidade Aquela famosa prenda.
Com isso, e mais o cobrado Às pessoas curiosas, Passavas de endividado, Cassino, a maré de rosas.
N.° 13
24 DE FEVEREIRO DE 1887.
Voilà ce que l'on dit de moi Dans la “Gazette de Hollande”
Há tanto tempo calado... E sabem por quê? Por isto: Pelo número fadado Da ceia de Jesus Cristo.
Número treze. Com esta São treze as minhas Gazetas. Numeração mui funesta, Cheira a cova e a calças pretas.
Há, porém, quem afiance Que treze é dúzia de frade. É opinião de alcance, Que anima e que persuade.
Contudo, em uma pessoa Sendo supersticiosa, Antes que na cousa boa, Crê na cousa perigosa.
Daí veio esta comprida
Vadiação; era medo, Medo de perder a vida Cedo, mais que nunca cedo.
Lembra-me inda certo dia, Quando eu tinha treze anos; Jantamos em companhia Treze rapazes maganos.
Um acabou reprovado Na Escola de medicina; Outro está bem mal casado; Outro teve pior sina.
Pior, digo, e em muitos pontos; Geria a casa dos Bentos; Fugiu, levando dez contos, Em vez de levar quinhentos.
Outro é político, e anda, Ora triste, ora sinistro; Dizem-me que ele tresanda Vontade de ser ministro.
Em dia de crise, voa A meter-se em casa, à espera De alguma notícia boa; Espera que desespera.
Só sai quando o gabinete Fica de todo formado, E jura pelo cacete Que há de pô-lo derreado.
Bufa, espuma. Abrem-se as câmaras, E o meu companheiro e amigo Aguarda o tempo das tâmaras, E torna ao seu voto antigo.
Outro daqueles rapazes Procura sinceramente Entre os meios mais capazes De encher a barriga à gente.
Um que seja imediato E de graúdas prebendas, Ou testamento, ou barato... Já não há pr'as encomendas!
Cá por mim, tive um inchaço Na perna esquerda; diziam Que essa doença era andaço, E até que muitos morriam.
Sarei; mas foi sobre queda Couce. A morte tão sombria. Que tantas casas depreda, Poupou-me para este dia.
Pois, minha dona, aqui fico, Já daqui me não arranco, Achei um recurso rico: Deixo este número em branco.
Não dou Gazeta nem nada; Não falo em cousa nenhuma, Gouvea, moção, espada; Em suma, de nada, em suma.
E tanto mais ganho nisto Que, como se fala em rolo, Podia um lance imprevisto Tirar-me o melhor consolo.
Que é este: olhar para a rua Cheia de cousas chibantes, E dizer — Feliz a lua... Se é que não tem habitantes.
N.° 14
7 DE MARCO DE 1887.
Voilà ce que l'on dit de moi Dans la “Gazette de Hollande”.
Se eu fosse aquele Custódio Gomes ou Bíblia chamado, Que não deu esmola ou bródio, Nem mimos por batizado,
Pela luz que me alumia, Juro, e mais que nunca, juro, Que pesaroso olharia Para este processo escuro.
Daria grandes palmadas, Ao ler tantas testemunhas, Tantas cousas encontradas, Tantas mãos e tantas unhas.
Pesquisas de parte a parte, E um testamento que é tudo: Ora forjado com arte, Para uso e para estudo,
Ora verdadeiro e filho Do próprio autor sepultado, Que ajuntara tanto milho Para não vê-lo espalhado.
Audiências e audiências, Nomes, nomes, nomes, nomes, Pendências sobre pendências; Fosse eu o Custodio Gomes,
Suspiraria: —”Bem tolo Que fui eu em prepará-lo, Esse rico e imenso bolo, Se não tinha de papá-lo.
“Que ajuntei, dia por dia, Vintém a vintém suado, Para deixar tal quantia De dinheiro amontoado;
“Que, quando havia desmancho Na casa de um inquilino, Em vez de dar esse gancho; Sabia intrépido e fino,
“Armado de cal, tijolo, Colher e as cousas restantes, E lograva recompô-lo, Melhor do que estava dantes.
“Que, se vagava algum prédio Dos meus, ia ver se tinha Uma taboa p’ra remédio, Talha ou taco de cozinha,
“Qualquer cousa que algum dia Valesse às necessidades... Com pouco e pouco (dizia) Fazem-se as grandes cidades.
“Comi o pão que o Diabo Amassou; fui parco e ativo, Trazia as botas no cabo, Mas a mão firme, o olho vivo.
“E no fim de tanta lida, Não sei se boa ou má sorte, Saí do rumor da vida, Sem olhar a paz da morte.
“Todos os dias cá leio Impresso o meu triste nome;
Vejo escrito que fui meio Maluco e unhas de fome.
“A minha vida sem ócios, Gente de casa e costumes, E todos os meus negócios... Já dá para encher volumes!
“Ah! se em vez de andar c'o a sela Na barriga a vida inteira, Vida de meio tigela, De poupança e de canseira,
“Vivesse à larga, comesse Deliciosas viandas, E cauteloso bebesse Vinho de todas as bandas;
“Roupa fina, o meu teatro, Uma ou outra vez berlinda; Moças, o diabo a quatro Até a existência finda;
“Quem se lembraria agora De mim? Dormia esquecido, Sem chegar a voz sonora Dos prelos ao meu ouvido.
“Convivas e devedores, Pode ser que se lembrassem Das ceias e dos favores, E alguma vez me louvassem;
“Mas tão baixinho e tão pouco Que a voz não me chegaria, E eu, que acabei meio louco, Surdo e mudo acabaria”.
N.° 15
20 DE MARCO DE 1887.
Voilà ce que l'on dit de moi Dans la “Gazette de Hollande”.
“Câmara Municipal Sem ter regimento interno!” Exclamou, com ar paterno Vereador pontual.
“Sem um acordo fraterno, Um papel, um manual,
Certo, acabaremos mal, Faremos disto um inferno.
“Digo-vos que é usual, Em qualquer lugar externo Haver regimento interno Para evitar todo o mal.”
Em tom sossegado e terno Diz outro municipal Que o pau (físico ou moral) É regime mais superno.
— “Há de haver algum sinal Aqui, pelo lado interno, Do efeito vivo e fraterno Desse estatuto formal.
“Palavras (é dito eterno) Às sopas não trazem sal; Quero ação, ação real, Venha do céu ou do averno.
“E que outra menos verbal Que a ação do cacete alterno, Não como um vento galerno, Porém, como um vendaval?
Se, assim amparado, externo Meu parecer cordial, Para que me serve o tal Regimento de caderno?
“Saiba a câmara atual Que, se eu aqui não governo, Tenho este dever paterno De a não fazer trivial.
“Paterno disse? Materno; Quero outro tom pessoal. Fique-lhe o tom paternal Ao colega mais moderno.
“Sim, o pau, é pau real Venha do céu ou do averno, E palavras (dito eterno) Às sopas não trazem sal “.
Não sei que disse o paterno Vereador pontual; Eu, por mim, prefiro a tal Um copo do meu falerno.
Não que seja um casual, Ruim, triste e subalterno Modo de encontrar em erno O consoante final,
É falerno e bom falerno Sorrir da municipal Que vive tant bien que mal, Sem ter regimento interno.
Ou esse escrito legal Que o outro chamou caderno, Para o bom viver paterno Vale tudo ou nada val.
Se não, por que é que o superno Parlamento nacional Conserva um trambolho igual, Quer de verão, quer de inverno?
Se sim, como é curial, Que não tenha esse uso interno, Corpo tal, que vive alterno, Conservador, liberal?
Relevem se um subalterno Entrou nesse cipoal... Olha a taça de cristal, Leitor, vamos ao falerno!
N.° 16
27 DE MARCO DE 1887.
Voilà ce que l'on dit de moi Dans la “Gazette de Hollande”.
Cousa má ou cousa boa Traz vantagem boa ou má; O incêndio da Gamboa Neste aforismo entrará.
Não fosse aquele medonho Desastre que ali se deu, E do qual nada aqui ponho, Pois que o leitor tudo leu,
Não saberia eu agora, Pelas narrações que vi, Uma notícia que chora, E que — essa, sim — ponho aqui.
Foi quando a água, correndo Pela rua e para o mar, Ia ardendo, ardendo, ardendo, Ardendo de amedrontar.
Então li que os habitantes De um beco, com tal horror Viram as águas flamantes, Arrastando a morte e a dor,
Que pensaram em deixá-lo, O beco em que há muito estão, Onde a morte, a fogo e a estalo, Punha em gelo o coração.
Esse beco, o beco escuso, O beco que nunca vi, Beco de tão pouco uso, Que nunca o nome lhe li,
Chama-se do conselheiro Zacharias; leiam bem. E vá, reflitam primeiro, Como eu refleti também
Ó meu douto Zacharias! Meu velho parlamentar! Ó mestre das ironias? Ó chefe ilustre e exemplar!
Quantas e quantas batalhas, Deste contra iguais varões! E de quantas, quantas gralhas, Tiraste o ar de pavões!
Sólido, agudo, brilhante, Sincero, que vale mais, Depois da carreira ovante, Depois de glórias reais,
Deram-te um beco... Olha, um beco... De tantas cousas que dar, Coube-te a ti, homem seco, Triste beco ao pé do mar.
Não digas que são mofinas Estas nossas distinções Pintadas pelas esquinas; Esquinas fazem barões.
Não cuides que, nesta lida Em que andamos, tem de ser Viva ainda a tua vida,
Escrita ou por escrever.
Logo, era uma honrosa graça Se entrasses no grande rol Com uma rua, uma praça, Bem à vista, bem ao sol.
Mas, não. De quanto valias, Agora nada valeis. Há o beco Zacharias, E a rua Malvino Reis.
Daqui, amigo, derivo Esta antiga e estranha flor: “Mais vale súdito vivo Que enterrado imperador”.
N.º 17
6 DE ABRIL DE 1887.
Voilà ce que l'on dit de moi Dans la “Gazette de Hollande”.
Temos nova passarola, De grandes asas escuras, Mexidas por certa mola Que dá sono às criaturas.
Chama-se — não sei maneira De pôr este nome em verso... Palavra, é grande canseira, Tão duro é ele e reverso.
Deito sílabas de lado, De outro sílabas arranco, Trabalho desesperado E fica o papel em branco.
Vá lá: medicina hipnótica, Custou, mas saiu... Parece A cousa um tanto estrambótica, E mais se a gente adoece.
Notem bem — é medicina, Posto a sugestão opere; Cá o meu bestunto opina Que um nome de outro difere.
Há em sugestão um jeito Teórico feio, enigmático; Mas medicina é perfeito,
Perfeito, rápido e prático.
Quando aqui há poucos anos, Já me não lembra em que dia, Deu entrada entre os humanos A exata dosimetria,
Disse eu: “Invenção potente! Perfeição do formulário! Consolação do doente! Fortuna do boticário!”
Mas daí a pouco ouvia (Outro inimigo da métrica) Em vez de dosimetria, Medicina dosimétrica.
E isso que cuidava que era Farmácia, era uma doutrina. Uma escola em primavera Contra a velha medicina.
Não digo que o sugestivo Hipnotismo também seja Ária sobre outro motivo, Nem igreja contra igreja.
Digo... Não sei como diga... Não sei como diga... Ai, musa Do diabo e de uma figa! Você ri! você abusa!
Digo (vá) digo que, quando Cuidava que esta matéria, Da qual não estou mofando, Que é séria, três vezes séria,
Não pelas razões do grave Apóstolo, que cogita Não fazer dela uma chave P'ra prender moça bonita;
Como se amor não tivesse Outra sugestão nativa, Que, quando menos parece, Faz arder o esquivo e a esquiva.
Quando (como ia dizendo) Supunha que a academia, Por sua vez, lendo e vendo, Ia explicar a teoria;
Que visse os graves problemas
Envoltos na descoberta, E como antigos sistemas Passam a questão aberta;
Que, como órgão da ciência, Examinasse, estudasse A vontade e a consciência Pela novíssima face;
Que visse como a pessoa Humana se multiplica, Vai a Túnis e a Lisboa, E cá reside, e cá fica;
Em vez disso,a academia Dá-lhe duas passadelas De escova, e manda a teoria Curar as nossas mazelas.
Isto é que me põe os braços Caídos, e a boca aberta... E já daqui vejo os passos Desta nova descoberta.
Atrás dos homens sabidos Virão os que nada sabem, E gritarão desabridos Até que os astros desabem.
Chegaremos aos cartazes E aos anúncios de vinhetas, Pílulas Holloway capazes De dar beleza às caretas.
Ora, há trinta anos havia Xarope que se chamava Do Bosque, e tanto valia, Que tudo e algo mais curava.
Hoje, esse licor exótico Não tem uso, interno ou externo ... Receio que o sono hipnótico Chegue a tudo... e ao sono eterno.
N.° 18
13 DE MAIO DE 1887.
Voilà ce que l'on dit de moi Dans la “Gazette de Hollande”.
Não neguei Bahia ou Minas,
Nem nunca fora capaz De negar Crato ou Campinas... Neguei, é certo, Goiás.
Pois que Goiás eu supunha Uma simples convenção, Sem existência nenhuma, Menos inda que ilusão.
E achava uma prova disto Naquele caso sem par, Nunca dantes, nunca visto, Nem por terra nem por mar:
O caso do presidente Que por dez anos ficou Presidenciando... Ó gente! Dez anos! Quem tal sonhou?
Dez meses, vá; é costume, E ninguém pode exigir Que um homem perca o chorume A trabalhar e a delir...
Ou, se é lícito em matéria De tanta ponderação Tão avessa ao chasco e à léria, Ter alguma opinião,
Digo que nem dez semanas... Dez dias podia ser. Traduziria em bananas O chegar, ver e vencer.
Não se impõe aos nossos climas Ars longa... É abreviar, Como eu abrevio as rimas; Não coser, alinhavar.
Quem podia, em nossa terra, A não ser entre galés, Como os comuns de Inglaterra? Trabalhar dez horas, dez?
Os nossos comuns gastaram Três dias em eleger Mesa e comissões; e andaram Perfeitamente, a meu ver.
Não vamos crer, porque temos Sistema parlamentar, Que só copiar devemos Os costumes de além-mar,
Mas, voltando à vaca fria... Que vaca? Onde íamos nós? Que diabo é que eu dizia? A digressão, vício atroz.
Não era a dívida, creio, Lamberti chamada, uns mil Contos de papo e recheio, Contos ou contões com til.
Também não era o desfalque Do Recife... ai, uma flor De esperanças... ai, não calque, Não calque nisso, leitor!
Eu, que tinha o meu bilhete, Pronto para enriquecer, Estou como se um cacete Me houvesse dado a valer.
Mas, com todos os diabos, Que era então? Não eras tu, Nariz dos grandes nababos; Nem tu, céu de Honolulu.
Ah! Goiás... Goiás existe; E tanto que, a vinte e dois De março, saiu um triste E longo bando de grous,
Como os de que fala o Dante, Que van cantando lor lai; Mas cá o pio ora ovante, Era só: quebrai, quebrai!
Um dos grous é delegado, Outros dizem que juiz; E tudo foi arrasado, Ou ficou só por um triz.
Defuntos, lavras do Abade, Mulheres, que ora gemeis De dor e necessidade, Justiça esperar deveis.
Mas eu daquela ocorrência Tiro uma lição vivaz: Goiás tem certa a existência, Goiás existe, Goiás.
N.° 19
12 DE JUNHO DE 1887.
Voilà ce que l’on dit de moi Dans la “Gazette de Hollande”.
Parece que há divergências Entre câmara e senado; Comparam-se as influências, Fala-se em patriciado.
Soube disso ultimamente Pelas folhas... Pelas folhas Sabe tudo toda a gente, Votos, lãs, óbitos, rolhas.
E, antes de ir ao parlamento, Direi que soube por elas Negócio de algum momento, De varões e moças belas.
Li que uma sociedade, Sociedade Protetora Dos Animais da cidade (Ó minha Nossa Senhora!)
Ia dissolver-se, e dava A razão do ato; era, em suma, Que nenhum esteio achava Nas leis nem em parte alguma.
Ora, eu que me ri, há meses, De vê-la, toda capricho, Falar de si muitas vezes E mui rara vez de um bicho,
Injusto fui. Ora o vejo, E confesso os meus remorsos. Não fiz justiça ao desejo Dela nem aos seus esforços,
Nem também principalmente À sua audácia provada De falar do bruto à gente, Sem ser para bordoada.
Cuidar de cães... Ter piedade De um triste e magro orelhudo, Que arrasta pela cidade Carroça, este mundo e tudo;
Isto a sério, isto sem medo Do riso de outras pessoas;
Fazer disto ofício ledo, Pôr isto entre as ações boas;
Quando é certo que cachorro, Nem burro, cavalo ou gato, Não sabem de tal socorro, Nem dão charanga ou retrato;
Trabalhar sem recompensa Imediata e tangível, Não é de gente que pensa, É maluquice visível.
Entretanto, a sociedade, Depois de pensar uns dias, Fica, e não se persuade Que entra em baldadas porfias.
Baldadas e generosas... Fique-lhe este prêmio, ao menos: Espalha as mãos dadivosas Aos pequenos mais pequenos.
Mas, voltando à vaca fria: Li que a câmara conhece No senado a primazia, E se dói, e se aborrece.
Não tédio em dar, a ponto De brigar abertamente; Faz com tristeza o confronto Sem magoar a outra gente.
Quando muito, ouve calada, Alguma palavra nua, E confessa encalistrada Que ou cede ou vai para a rua.
Busca-se agora um remédio, Alguma cousa que faça Cessar esse amargo tédio... Aqui lh'o trago de graça.
Deu-m'o um espírito agudo, Que também é deputado, Varão conspícuo e sisudo, Não sei se desanimado.
Droga fácil e sumária, Que não traz dor, mas delícia; É fazer da temporária Uma cousa vitalícia.
Então, sim; iguais as damas, Serão iguais os vestidos, Iguais as perpétuas chamas Nos peitos endurecidos.
Não respondi à pessoa Que isto me dizia, nada; Se a idéia é ruim ou boa, Aí a deixo estampada.
N.° 20
18 DE JUNHO DE 1887.
Voilà ce que l'on dit de moi Dans la “Gazette de Hollande”.
Rosa de Malherbe, ó rosa Velha como as botas velhas, Que foste grata e cheirosa, E ora desprezada engelhas;
Rosa de todos os vasos, De todas as mãos humanas, Trazida a todos os casos, Com lírios e com bananas;
Rosa trivial e chocha, Pior que as mal fabricadas, Menos que rosa, uma trouxa De folhas esfarrapadas,
Não por má, não que não prestes, Não que não sejas ainda A mesma rosa que deste Vida e cor à estrofe linda,
Mas porque é nosso costume, Se achamos um dito a jeito Tirar-lhe todo o chorume Até deixá-lo desfeito.
Às vezes, menos que um dito, Uma locução somente, Um verbo novo ou bonito, Pelintra ou cousa decente...
Vagabundo é que não anda; Terá tanto e tanto emprego De salão ou de quitanda Que nunca achará sossego;
Até que lá vem um dia, Em que o infeliz surrado, Gasto, podre, sem valia, Ao lixo é abandonado.
Lá vou eu buscar-te, ó rosa De Malherbe; é necessário Fazer citação dengosa Num caso extraordinário.
Não o caso pavoroso Do sindicato, alta e baixa. Negocio tão ponderoso Que acabou quebrando a caixa.
Demais, ouço tais notícias, Tantas cousas segredadas, Que só pegando em milícias Para rimar com pancadas.
Posto que essa rosa bela Viveu, como as outras rosas, Um dia, e sem mais aquela Perdeu as folhas viçosas.
Não trato dessa, mas trato Da rosa legislativa, Nascida sem aparato, Morta quando apenas viva.
Foi o senador Uchoa Que lhe deu vida e nascença, Pareceu-lhe a idéia boa, Propô-la sem mais detença.
Em verdade, não contava Ninguém com tal aditivo; Foi como uma vaca brava Ao pé de um par pensativo.
De mais a mais, sem discurso, Modesto, calado e manso; Mal comparando, era um urso Metido em pernas de ganso.
Urso, embora parecesse Ao golpe das mãos humanas, Podia ser que vivesse Uma, duas, três semanas.
Era vir, tambor à frente, Polcando ao som de rabeca, Lançando ao ar, como gente,
Foguete, bomba ou peteca.
Menos de um mês viveria; Mas, surgindo assim calado, Viveu apenas um dia, Foi morto e foi sepultado.
Lá que mais tarde apareça Em forma de idéia nova, E que outrem se desvaneça De o passar por outra prova,
De maneira que essa rosa, Que foi rosa e que foi urso, Ganso e vaca furiosa, Passe a sol nalgum discurso,
Não me espantará. Comigo Uma só cousa há que espante: Se desta vez a não digo É falta de consoante.
N.º 21 4 DE JULHO DE 1887.
Voilà ce que l'on dit de moi Dans la “Gazette de Hollande”.
Meu Octaviano amigo, Que idéia foi essa vossa De deixar que o inimigo Inda uma vez ganhar possa?
Ruim verso, mas aí fica; Pior que fosse, ficara; Não há rima bela ou rica; Brilhante, sólida ou rara,
Quando o espírito, pasmado, Mal sabe o que vai dizendo... E eu sinto-me apatetado Ante esse conselho horrendo.
Sim, eu penso com Malvino Que as abstenções são fatais. É este o melhor ensino Em cousas eleitorais.
Pois não há aí três pessoas... Digo mal, duas somente, Sinceras, válidas, boas,
Que lutem proximamente?
Que é a vida? Uma batalha, Tiro ao longe, espada à cinta; Para os barbeiros, navalha; Para os escritores, tinta;
Para os candidatos, cédula. Quantas vezes tenho visto Confessar a gente incrédula Que não soube atentar nisto!
Sim, eu penso com Malvino Que as abstenções são fatais; É esse o melhor ensino Em cousas eleitorais.
Eu, em rapaz, era dado Às moças! Lembra-me que uma Tinha o corpo bem talhado E olhos feito verruma.
Olhos tais que penetravam Na gente, em reviradela; E muitos moços sangravam Da marcenaria dela.
Quis ver se era amado. Um tio, Fazendo por dissuadir-me, Andava num corrupio, E eu firme, três vezes firme.
Sempre entendi com Malvino Que as abstenções são fatais. É esse o melhor ensino Em cousas eleitorais.
E notem a coincidência; Essa moça, esse pecado Tinha a sua residência Mesmo à rua do Senado.
E notem mais que não era Uma cadeira, mas duas... Camões, que falou da hera, Meta aí palavras suas.
Confesso que, ao recordá-la, Sinto em mim tais pensamentos, Que era capaz de arrancá-la A cinco ou seis regimentos.
Nisto entendo, com Malvino,
Que as abstenções são fatais. É esse o melhor ensino Em cousas eleitorais.
Lutei muito. Ela fechava Muitas vezes a janela, Quando eu por ali passava Para ver o rosto dela.
Outras vezes devolvia Cartas escritas com sangue... Lembra-me uma, que dizia: “Anjinho meu, não se zangue,
“Se passo por sua casa; Menos ainda, se temo Em alimentar a brasa Deste fogo em que me queimo.
“Que eu penso, como Malvino, Que as abstenções são fatais; É esse o melhor ensino Em cousas eleitorais”.
E o certo é que fiz tanto, Tanto andei por essa rua, Gemi, gemi tanto canto, Sem lua, e ainda mais com lua,
Que a moça, de compassiva, Escutou meus ais tristonhos E pegou da pena esquiva, Para responder-me aos sonhos.
“Sei que és coração perfeito, Que me amas e que não cansas. Mando-te aqui do meu peito, Não amor, mas esperanças...
“Crê, amigo, com Malvino, Que as abstenções são fatais. E' esse o melhor ensino Em cousas eleitorais.
N.° 22
1.° DE AGOSTO DE 1887.
Voilà ce que l'on dit de moi Dans la “Gazette de Hollande”.
Anda agora toda a imprensa,
Ou quase toda, cuidando De alcançar que, sem detença, Acabe um vício nefando.
Na brasileira linguagem, Essa nacional usança Chama-se capoeiragem; É uma espécie de dança,
Obrigada a cabeçadas, Rasteiras e desafios, Facadas e punhaladas, Tudo o que desperte os brios.
Há formados dois partidos, Dizem, cada qual mais forte, De tais rancores nutridos, Que o melhor desforço é morte.
Ora, os jornais que desejam Ver a boa paz nas ruas, Reclamam, pedem, forcejam Contra as duas nações cruas.
Referem casos horrendos, Já tão vulgares que soam Como simples dividendos De bancos que se esboroam.
E zangam-se as tais gazetas, Enchem-se todas de tédio, Fazem caras e caretas Por não ver ao mal remédio.
Vou consolá-las. É uso Das alminhas bem nascidas Dar, contra o pesar intruso Consolações repetidas.
Eu (em tão boa hora o diga, Que me não minta esta pena!) Tenho aquela corda amiga Que, em pena, dá eco à pena.
Inda quando a rima saia, Como essa, um pouquinho dura, (Ou esta da mesma laia) É rima que dói, mas cura.
As consolações — ou antes A consolação é uma; Trepa tu pelas estantes,
Busca, arruma, desarruma:
E, se tens livros contendo Decisões de Vinte e Quatro (Há sessenta anos!) vai lendo Um aviso áspero e atro.
Lê isto: “Para que cessem De uma vez os capoeiras, Que as ruas entenebrecem, Com insolentes canseiras,
“Manda o imperador, que sabe E quer pôr a isto cobro, Dar a pena a que lhes cabe, E se for preciso, em dobro.
“Recomenda neste caso Que haja a major energia, Para que em estreito prazo Acabe a patifaria;
“E seja restituída A paz aos bons habitantes, De modo que tenham vida Igual à que tinham dantes”.
Ora, se este aviso expresso (Que é de vinte e oito de maio) Teve tão ruim sucesso Que inda fulge o mesmo raio,
Concluo que o capoeira Nasceu com a liberdade, Ou deu a nota primeira Se tem mais que a mesma idade.
Valha-nos isto, que ao menos Consola a gente medrosa, E faz de alguns agarenos Cristã gente gloriosa.
Sete de abril, a Regência, Depois a Maioridade, Partidos em divergência, Barulhos pela cidade,
Guerras cruas e compridas, Exposições, grandes festas, Paradas apetecidas, Tudo viu a faca e a testa...
N.° 23
20 DE AGOSTO DE 1887.
Voilà ce que l'on dit de moi Dans la “Gazette de Hollande”.
Ouvi que algumas pessoas Entendidas e capazes De distribuir coroas, Andam estudando as bases
Da festa que comemore Uma grave ação recente: Jantar que a pança devore, Doce de atolar o dente,
Ou retrato a óleo, e banda, Com algum palavreado, Uso desta velha Holanda, Antigo e repinicado.
Há quem pense em monumento, Obra fina que reúna Bronze, mármore e cimento, Ou busto ou simples coluna.
Em suma, nada que cheire A inquérito ou a devassa, Ou cousa que se lhe abeire... Grande obra e de grande traça.
Porquanto, se aquela preta, Que ia sendo sepultada, Não chega a fazer mareta, E desce tranqüila ao nada,
Se já no caixão metida E levada ao necrotério, Não suspira pela vida, Mistério contra mistério,
Não tinha havido barulho, É certo, nem artiguinhos; Tudo acabava no entulho, Bichinho entre mil bichinhos;
Mas também nem a vitória Ao inspetor caberia, Que mandou a preta à gloria, Aonde ela ir não queria.
Pois no rosto da sujeita,
Que ressurgiu com malícia, Talvez porque em sua seita Ninguém morre de polícia,
Tu, sagaz, tu descobriste Que a morte era cousa certa, E — vendo quanto era triste Viver de ferida aberta
No meio desta cidade, Por mais algum magro dia — Encheste-te de piedade, Vibraste de inspetoria.
E perdoando à coitada O resto da vida horrenda, Mandaste dar-lhe pousada Debaixo da eterna tenda.
Ela, que tornou ao mundo, Entre as cantatas da imprensa, Torna ao báratro profundo, Morre sem pedir licença.
Triunfa, inspetor, triunfa Neste voltarete, filho, Trunfa, trunfa, trunfa, trunfa, Que a todos deste um codilho.
Imagina tu se abrissem Inquérito sobre o caso, E que afinal concluíssem Que o teu ato era um desazo;
E que isto de meter gente Viva em caixão de finado, Sem exame competente, Devia ser castigado,
Que cara com que ficávamos, Agora que a preta é morta! Seguramente tomávamos Novas da nossa avó torta.
N.° 24
23 DE AGOSTO DE 1887.
Voilà ce que l'on dit de moi Dans la “Gazette de Hollande”.
Anda-se isto a desfiar:
Quem será o responsável Dos atos que praticar O poder irresponsável?
Há várias opiniões Sobre esta questão pendente; Contradizem-se as razões, Um afirma, outro desmente.
Vão aos livros e aos Anais Buscar uma extensa lista De palavras textuais Deste ou daquele estadista.
Nem só nacionais, também Surgem nomes estrangeiros, Nomes ilustres, que têm Merecidos pregoeiros.
Um deles foi o senhor Benjamin Constant, pessoa Que o poder moderado Criou e deu à coroa.
Foi ele, em escrito seu, Que à constituição brasília, Sem saber, o artigo deu Que pôs a toda família
Dos poderes, um poder Que a regesse e moderasse... Outros porfiam em ver O caso por outra face.
E tu, Benjamin, fatal, Grande amador de pequenas, Tu, morto, tu, imortal, Lá das regiões serenas,
Que pensas, que pensas tu Nesta questão, obra tua? Tira do espírito nu Opinião crua e nua,
Põe-lhe sobrescrito a mim, Se achas melhor escrevê-la; Ou brada-m'a, Benjamin, Que eu poderei entendê-la.
E logo uma bela voz Me entrou pelo gabinete, Fininha como um retrós, Viva como um diabrete.
E disse: — “Queres saber O que nesta causa penso? Qual o meu modo de ver? A que partido pertenço?
“Se acho que o moderador, Nos atos em que modera, Tem ou não algum senhor Que responde e o desonera?
“Se o poder, a quem chamei Neutro, pode, irresponsável, Ter por isso mesmo em lei Um ministro responsável?...”
“ — Sim, despacha, respondi Já zangado e impaciente.
— “Di-lo-ei a ti, a ti; Se queres, di-lo a mais gente.
“Não verás em mim a flor Da modéstia, planta rara, Responderei com rigor, Certeza e palavra clara.
“Digo que gostei de ouvir Idéias finas e tantas, Gostei de as ver discutir Leão, Cotegipe e Dantas.
“Mas, com franqueza, eu deitei Tudo ao mar, nesta viagem. Só uma cousa guardei E trago-a cá na bagagem.
“Não que julgue sem valor Outras páginas escritas Ou faladas, não, senhor; São puras e são bonitas.
“Foram feitas ao buril, Pensadas e bem pensadas. Deixei-as às mil e às mil, Por esse mundo espalhadas.
“Mas agora que aqui estou, Livre de ruins cuidados, Digo: o melhor que ficou Dos escritos lá deixados
“Foi... palavra que não sei, Não sei bem como me exprima:
Foi um livrinho de lei, Uma jóia, uma obra-prima,
Um livro, um livrinho só, Que entre os escritos passados, Resiste ao mórbido pó — Dos anos empoeirados.
“Custa-me dizê-lo, crê: Um romance, e pequenino; Relê, amigo, relê O meu Adolpho; é divino.
“Do mais tanto cuido aqui Como daquela camisa, A primeira que vesti... Diz a rima que era lisa”.
N.° 25
30 DE AGOSTO DE 1887.
Voilà ce que l’on dit de moi Dans la “Gazette de Hollande”.
Eu, pecador, me confesso Ao leitor onipotente, E a grã bondade lhe peço De ouvir pacientemente
Uma lengalenga longa, Uma longa lengalenga, Áspera, como a araponga, E tarda como um capenga.
Saiba Sua Senhoria Que, em cousas parlamentares, A minha sabedoria Vale a de um ou dois muares.
Não? Isso é bondade sua... Modéstia minha? Qual nada! Digo-lhe a verdade crua, Nua e desavergonhada.
Não entendo patavina, Eu, que entendo a lei mosaica, Humana, embora divina, Límpida, conquanto ataica.
“E disse o Senhor: Faze isto, Moisés, faze aquilo, ordena,
Eu, c'o meu poder te assisto; Põe esta pena e esta pena”.
Eram assim leis sem voto, Sem consulta, sem mais nada. Deus falava ao grão devoto, E vinha a lei promulgada.
Mas por que é que tanta gente, Reunida numa sala, Examina a lei pendente Escuta, cogita e fala?
E por que vota? pergunto ... Nisto abro uma folha, e leio Bem explicado este assunto: Era um discurso alto e cheio.
O orador, um deputado Do Ceará, respondia A um que o tinha acusado De manter a escravaria.
Defendia-se, mostrando Que, desde anos longos, fora Dos que viveram chamando A aurora libertadora.
Que a obra da liberdade Era também obra sua, Fê-la com alacridade, Sem proclamá-lo na rua.
Votou, é certo, em contrário Ao projeto com que o Dantas Criou o sexagenário E umas outras cousas tantas.
Mas não foi porque o julgasse Oposto ao que entende justo, Nem porque ele lhe vibrasse Qualquer sensação de susto.
Foi só porque o gabinete Para o Ceará mandara Um presidente e um cacete, Ambos de muito má cara.
Ele, vendo os seus amigos Perseguidos, destinados, Depois de grandes perigos, A serem exterminados.
Votou contra a lei; e a prova De que lhe não era oposto, É que, vindo gente nova, Votou a lei, de bom rosto.
E conclui assim: “Senhores, Qualquer outro que se achasse, Cheio de iguais amargores E injúrias da mesma classe,
Faria o que fiz”. Pasmado, De tudo o que não sabia, Vim confessá-lo humilhado Ante Vossa Senhoria.
N.º 26 6 DE SETEMBRO DE 1887.
Voilà ce que l'on dit de moi Dans la “Gazette de Hollande”.
Eustáquio Primo de Seixas, Morador em Santo Amaro (Bahia), fez umas queixas Sobre um caso duro e amaro.
Parece que um tal Francisco De Paula Aragão e Souza, Para reduzi-lo a cisco E pôr-lhe em cima uma lousa,
Pegou de um revólver, obra Bem feita, acabada, Pior que dente de cobra, Melhor que fio de espada;
E, indo ao sobredito Seixas, Despejou-lhe, não a arma Nem precisamente endechas, Nem violetas de Parma,
Mas uma descompostura, Como se diz vulgarmente, Porque quando a gente cura De falar mais finamente,
Diz torrentes de impropérios; Tal foi o modo limado Que, em seus artigos tão sérios, Empregou este agravado.
Eustáquio estava na rua Da Matriz — tão concorrida De gente, que viu a sua Pessoa assim ofendida.
De tais injúrias e acintes Ouviu metade calado, Até que, em tantos ouvintes, Um houve, mais animado,
Que pôde dar escapula Ao que ouvia tanta cousa, Mas o diabo que açula A alma a Aragão e Souza,
Faz com que lhe não estaque A torrente de impropérios, Sotaque sobre sotaque, Ditérios sobre ditérios.
Já que em casa recolhido Eustáquio, vai muita gente Pôr-se ao lado do ofendido Contra aquele ato insolente.
Vai mais; vai gente inimiga; Vai mais; vai o próprio Souza Pedir-lhe que o não persiga; Que lhe perdoe tanta cousa.
Responde-lhe Seixas: “Pronto Estou a dar-lhe o que pede, Mas só quero um ponto, um ponto, E cederei se me cede.
“Peço-lhe que se retrate Das injúrias que me há dito...” Aragão, dado ao combate, Repete, e repete escrito
Todas as injúrias feitas... Aqui, meu leitor amigo, Tu que buscas, tu que espreitas Achar sentido ao que digo,
Não decifrando a charada, Perguntas naturalmente: “Que tenho eu com isso?” — “Nada, Respondo-te eu; e a Regente?”
Porque o mais rico da cousa E' que o tal Eustáquio Seixas,
Contra o Aragão e Souza, Trouxe à imprensa as suas queixas,
Escrevendo: “À Sereníssima Princesa Regente”. Ó dura Condição triste e tristíssima, Que mal sei como se atura!
Governar para ler estas E outras ridiculezas... Ó sorte das régias testas! Ó destino de princesas!
Que um homem em Santo Amaro, Ouvindo duas graçolas (Caso antes comum que raro) Toque no chapéu de molas,
Enfie a casaca, e calce As botas envernizadas, E, todo flor e realce, Suba as imperiais escadas,
Para contar uma cousa Que se conta ao delegado Isto é, que Aragão e Souza É pouco morigerado,
Palavra que desanima De ocupar na terra um sólio: Antes governar a rima, Bem ou mal como o Malvólio.
N.° 27
13 DE SETEMBRO DE 1887.
Voilà ce que l'on dit de moi Dans la “Gazette de Hollande”.
Se Deus me dissesse um dia:
— Que desejas tu, Malvólio? Castelos na Normandia? Uma biblioteca in-fólio?
“Um punhado de brilhantes, Grandes como ovos de pomba? Um batalhão de elefantes, Marfim puro e extensa tromba?
“Moças, com as quais cantasses A vida, e pelo estio,
Cantigas velhas que achasses, Como esta, no peito frio:
“Cajueiro pequenino, “Carregadinho de flores “Eu também sou pequenino, “Carregadinho de amores.
“Ou tendo espíritos altos, Ir correr desejarias Perigos e sobressaltos De Rússias e de Turquias,
“Pegando, com alma icária E braços impacientes A coroa da Bulgária, E defendê-la das gentes?”
Responder-lhe-ia eu, contrito:
— Não desejo, ó verdadeiro Deus grande, Deus infinito, Ser castelão nem livreiro,
Nem ter pedras preciosas, Nem legiões de tamanhas Alimárias pavorosas, Vindas de terras estranhas,
Nem bonitas raparigas Com quem eu cantar pudera Algumas velhas cantigas, Cantigas de primavera,
Menos inda, muito menos, Correr sem mais nada, à toa, Pequeno entre os mais pequenos, A apanhar uma coroa.
Não, o que eu quisera, ó divo Senhor, que mandais a tudo, O meu desejo mais vivo, Que me corrói, longo e mudo,
Era entrar pela janela Do senado... Olhai, não digo Pela porta. A porta é bela, Porém já não vai comigo.
A porta, traz como agora, Obrigações superfinas; Li-as em prosa canora, Sobre as eleições de Minas.
A primeira é que resida O candidato na terra, Pois se acaso a própria vida A outra terra o desterra,
Perca as tristes esperanças De conservar eleitores. Se há exemplos, são carranças, Outra quadra, outros amores.
Olindas, Celsos, Correias, Nabucos e Zacharias, São estragadas candeias, De outros homens e outros dias.
Agora, quanto à segunda Obrigação do diabo, É igualmente profunda... Não se quer nenhum nababo,
Que ande assim, como um tesouro, Em carruagens de prata, Cavalos ferrados de ouro, Um jantar em cada pata;
Mas se o candidato é pobre E passa a vida lidada, Não entra em funduras. Dobre, Amigo, dobre a parada.
Ora, eu que há muito suspiro Pelo senado, e aqui moro, Lidando, que mal respiro, Sem o vil metal que adoro,
Uma noite adormecia Lendo alguma velha história De Veneza ou da Turquia, E acordava em plena glória,
Diante do presidente Aparecia sentado. Ai, Deus justo, ai, Deus clemente... Janela... curul... senado...
N.° 28
20 DE SETEMBRO DE 1887.
Voilà ce que l'on dit de moi Dans la “Gazette de Hollande”.
Quando tudo em paz corria Cai uma nuvem prenhada De chuva e de ventania, De saraiva e trovoada.
E cai lá naquela banda Do paço dos senadores, O melhor paço da Holanda, Boa pedra, arminho e flores.
Inda se fosse no paço Dos deputados, vá feito; Embora sendo embaraço, Caía no próprio leito.
Pois se este paço figura Ao pé do velho senado, Que afigura e transfigura, Como ele, o que lhe é levado,
Certo é que é mais dada a zona Aos temporais desabridos; Quem lá vai mete-se em lona, Oleado e outros tecidos.
Mas, no senado, em verdade, Posto não seja o primeiro Exemplo de tempestade, Nem talvez o derradeiro,
Causa espanto, porque tudo Parecia que ia andando, Não inteiramente mudo, Mas lentamente calando.
Vai então, como eu buscasse Saber por algum amigo, Maneira com que explicasse Este singular perigo,
Achei um vizinho, um magro, Um que não tem este olho; Chamá-lo-ia Meleagro, Di-lo-ia autor de algum molho,
Se não parecesse abuso Esse recurso mofino, Mofino, mas não escuso... Os versos têm seu destino!
Tenho sido belo, às vezes,
Só por exigi-lo a rima; Chama-se a um homem Menezes Quando não passa de um Lima.
Mas, qualquer que seja o nome Do vizinho consultado, Fui lá p'ra matar a fome E saí esfomeado.
Procurei-o, como disse, E no meio da palestra Aconteceu que surgisse Uma questão grave e mestra:
Se o senado é que governa Ou a câmara. O sujeito, Querendo passar-me a perna, Tira estas vozes do peito:
“— Dizem que a câmara baixa, Conforme a prática inglesa, Assim como tem a caixa Da receita e da despesa,
“Rege a política, e forma Os homens à sua imagem, Que é essa a única norma Da parlamentar viagem.
“Sendo, porém, cousa certa Que os ingleses querem antes Achar sempre a porta aberta. Dos comuns representantes.
E comuns há que padecem, Se a boa sorte lhes falta, E após os pais que falecem Vão para a câmara alta,
“Onde é menor o trabalho, Sessões curtas, pouca vida, Galho do poder, mas galho De folha amarelecida;
“Cá buscamos o senado; E se o que há mais forte e fino Tem ali lugar marcado É que ali mora o Destino”.
N.° 29
27 DE SETEMBRO DE 1887.
Voilà ce que l'on dit de moi Dans la “Gazette de Hollande”.
A semana que há passado... Deixe leitor que me escuse, E de um falar tão usado Abuse também, abuse.
Há passado, hão carcomido... Hão, hão, hão, hão posto em tudo, Hão, hão, hão, hão recolhido... Estilo de tartamudo.
Ai, gosto! ai, cultura! ai, gosto! Demos um jeito e outro jeito: Venha dispor e há disposto Venha dispor e há desfeito.
Mas usar de uma maneira Até reduzi-la ao fio, Não é estilo, é canseira; Não dá sabor, dá fastio.
Porém... Já me não recordo Do que ia dizer. Diabo! Naveguei para bombordo, E fui esbarrar a um cabo.
Outro rumo... Ah! sim; falava Da outra semana. Cheia Esteve de gente escrava, Desde o almoço até a ceia.
Projetos e mais projetos, Planos atrás de outros planos, Indiretos e diretos, Dois anos ou cinco anos.
Fundo, depreciamento, Liberdade nua e crua; Era o assunto do momento, No bond, em casa, na rua.
Pois se os próprios advogados (E quem mais que eles?) tiveram Debates acalorados No Instituto, em que nos deram
Uma questão — se, fundado Este regime presente, Pode ser considerado
O escravo inda escravo ou gente.
Digo mal: — inda é cativo Ou statu liber? Qual seja Correu lá debate vivo, Melhor dizemos peleja.
Mas peleja de armas finas, Sem deixar ninguém molesto: Nem facas, nem colubrinas, Digesto contra Digesto.
Uns acham que é este o caso Do statu liber. Havendo Condição marcada ou prazo, Não há mais o nome horrendo.
Outros, que não são sujeitos Ferozes nem sanguinários, Combatem esses efeitos Com argumentos contrários.
Eu, que suponho acertado, Sempre nos casos como esses, Indagar do interessado Onde acha os seus interesses,
Chamei cá do meu poleiro Um preto que ia passando, Carregando um tabuleiro, Carregando e apregoando.
E disse-lhe: “Pai Silvério, Guarda as alfaces e as couves; Tenho negócio mais sério, Quero que m'o expliques. Ouves?”
Contei-lhe em palavras lisas, Quais as teses do Instituto, Opiniões e divisas. Que há de responder-me o bruto?
— “Meu senhor, eu, entra ano, Sai ano, trabalho nisto; Há muito senhor humano, Mas o meu é nunca visto.
“Pancada, quando não vendo, Pancada que dói, que arde; Se vendo o que ando vendendo, Pancada, por chegar tarde.
“Dia santo nem domingo Não tenho. Comida pouca: Pires de feijão, e um pingo De café, que molha a boca.
“Por isso, digo ao perfeito Instituto, grande e bravo: Tu falou muito direito, Tu tá livre, eu fico escravo “.
N.° 30
4 DE OUTUBRO DE 1887.
Voilà ce que l'on dit de moi Dans la “Gazette de Hollande”.
Há muito inglês já defunto, Canning, Peel e consortes, Que são o perpétuo assunto Da eloqüência e seus transportes.
Cada ano que passa, deixa Nos anais parlamentares, Entre um ataque e uma queixa, Esses nomes singulares.
Assim, posto que vivamos À moda francesa, é certo Que todos imaginamos Estar dos ingleses perto.
Vede, por exemplo, os nomes Dos que escrevem de política; Não são Barros, não são Gomes, Nomes de fama somítica.
Entre um Guizot e um Horácio, Quantos Walpoles facundos! Pobre Gália! Pobre Lácio! Britânia é mundo entre mundos.
E, na verdade, a Inglaterra Tem de sobra exemplos grandes Para ensinar toda a terra, Do Cáucaso até os Andes.
Hão de dizer, com justiça, Que até aqui tenho usado O latim da velha missa, Já sabido e decorado.
Que sou vulgar como um bule De botequim, — como um homem Que, perdendo ontem na pule, Narra as dores que o consomem;
Vulgar como um par de botas Rotas e desengraxadas, Vulgar como as quatro sotas, Copas, ouro, paus e espadas.
Muito bem; mas, tendo em vista Embora a vulgaridade Procurar alguma pista, Por onde ache a realidade,
Li agora um documento, Circular de candidato, Feita com discernimento, Bom estilo, ameno e grato.
Tão grato, que pede o voto Como um favor, e confessa Que, vencido o terremoto, Fará que jamais o esqueça.
Que seja novo não digo, Nem novo, nem menos raro; É costume um pouco antigo, Vulgar, sem ofensa e caro.
Pois o eleitor, de outro lado, Não faz favores à toa, Quer ser mui cumprimentado Em palavras e em pessoa.
Há tal que o votinho nega A gente que o não visite, Não que queira ver se emprega Bem a cédula que emite,
Perguntando ao candidato Qual a escola que mais usa, Se a de um governo barato, Se a do que gaste e produza;
Não, senhor; mas tão somente Para ouvir cousinhas finas, E mostrar a sua gente, A esposa, a sogra e as meninas.
Ouvir que a filha terceira Há de ser uma figura
Como a segunda e a primeira, Modelos de formosura,
Ouvir um bom elogio À laranjinha da casa; Dar notícia de algum tio, Que perdeu na ilha Rasa.
Ver que o candidato mira De quando em quando a poltrona, Em que se alarga e se estira, Gesto de louvor que a abona.
Se há tais entre os eleitores, E pedes, ó candidato, Como o favor dos favores, O voto, e lhes ficas grato,
Para que tantos ingleses, Que dormem nas sepulturas, Virem bailar tantas vezes Nas nossas legislaturas?
Nacionalizemos isto. Queres citar? Cita, cita Nome cá nascido e visto. Deixe o Pitt; cita o Pitta!
N.º 31
11 DE OUTUBRO DE 1887
Voilà ce que l'on dit de moi Dans la “Gazette de Hollande”.
Na semana que lá foi, Houve cousas do diabo, Já de vaca, não de boi, Já com rabo, já sem rabo.
Sem rabo o que apareceu, Foi a grande tartaruga, Que naufragou e morreu Em praia onde o mar se aluga.
Espécie nada comum, Foi logo classificada, Sem nenhum erro, nenhum, E está no Museu guardada.
Ora, é muito de saber Que a bicha, ao pousar na praia,
Sorriu consigo de ver Tanta senhora sem saia.
E consigo murmurou, Porque é animal sabido, Tanto que Deus lhe botou Nome latino e comprido:
— “Mostra a gente ao pé do mar O que numa sala esconde. Tudo é conforme o lugar, Preciso é saber aonde.
“E tais encantos em flor, Que ninguém arrastaria Pela rua do Ouvidor De noite, e menos de dia,
“Aqui publicados são Sem bulha, nem matinada, Aos olhos do camarão Que nada, e do que não nada.
“Pascal é que disse bem Quando da justiça ria: “Verdade aqui, erro além “. Cabe o dito à rouparia.”
Com rabo, houve o edital Da câmara, um documento Que apareceu no Jornal No mesmo dia e momento
Em que deviam abrir As propostas que acudissem ... Aos que ficaram a rir, Bradaram que se não rissem.
Que o tenente-coronel Presidente é que mandara Compor aquele papel Que a folha não publicara,
Conquanto a tempo o doutor Secretário o remetesse... Não sei se o comendador Tesoureiro andou com esse.
Pode ser que o general Procurador da fazenda, Como é muito bom fiscal, Não gostasse da encomenda.
Pode ser; mas pode ser Também que o protonotário Escrivão, em vez de ler O Jornal, lesse o Diário.
Ora, em verdade, foi bom O caso: fico inteirado Que é de rigor e bom tom Cargo com título ao lado.
E não escrever papel Em que venha o presidente Sem tenente-coronel, Seria pouco e insolente.
Quanto ao que houve, não de boi, Mas só de vaca, naquela Semana que lá se foi, Certo não foi bagatela.
Foi um projeto que quer População vacinada, Seja homem ou mulher, Gente grande ou criançada.
E não mais se casará Sem se provar que a menina E o noivo tiveram já Ultimamente vacina.
Mas, como falasse alguém Na câmara contra isto, Dizendo que a cousa tem Pecha contra a lei de Cristo,
Responderam-lhe que sim, Que os noivos terão dispensa Bastará ao grande fim Toda a mais lei, que é extensa.
Pois manda revacinar, Além dos tenros infantes, Soldados de terra e mar, Funcionários e estudantes.
Mas por que se há de excluir Desse dever mal cruento Quem vai à gente pedir Um lugar no parlamento?
Quero crer que as ambições Hão de vir em grande malta, Suprindo as vacinações
O mérito que lhes falta.
Dir-se-á de um legislador Morto, que era homem honrado, Bom caráter, bom senhor, Modesto e revacinado.
E, pois que um caso esqueci Da outra semana, digo Muito à puridade aqui, Que falta à lei outro artigo.
Falta artigo, pelo qual, Em caso de desafio, Pudesse um homem mortal cortar à pendenga o fio.
Corta deste modo: ouvir O outro, em lances extremos, E responder-lhe a sorrir: “Vacine-se e falaremos”.
N.° 32
18 DE OUTUBRO DE 1887.
Voilà ce que l'on dit de moi Dans la “Gazette de Hollande”.
Tudo foge; fogem autos, Fogem onças, foge tudo. Ó guardas moles e incautos! Ó corações de veludo!
Uma onça, que vivia Em casa de uma senhora, Viu aberta a porta um dia Da gaiola, e foi-se embora.
Na roça? Não; na cidade. Que cidade? É boa! a tua. Dou mais esta claridade: Era na rua... na rua...
Rua da América... Pronto! Mas, se não leste a notícia, Cuidarás que é isto um conto, É talvez conto e malícia.
Não, amigo. Era uma onça, Tinha aos três anos chegado; Vivia discreta e sonsa
Em casa, num gradeado.
Vai senão quando, — um descuido — Deixaram-lhe aberta a porta, E a onça sentiu um fluido Que não sente onça já morta.
Sentiu passar-lhe no lombo O fluido da liberdade, E, ligeira como um pombo, Deixou a casa da grade.
Nenhum liberal, que o seja Como deve, achará livro De tantos da sua igreja Que condene este carniv’ro.
Pois se foge o papagaio, O macaco, a patativa, Seja outubro, seja maio, Tenha ou não tenha mãe viva,
Que muito é lá que uma nobre Onça das brasílias matas, Logo que possa, recobre O uso das sua patas?
Lá por viver entre gente E canapés delicados, Não acho suficiente Para condená-la a brados.
Certo é que fugiu. Bem perto, Duas casas logo abaixo, Achou como que um deserto, E resolveu:”Lá me encaixo”.
Era casa em obras. Passa Todo o sábado e domingo, Sem comer sombra de caça, Sem beber de sangue um pingo.
Na segunda-feira, cedo Sobe ali um operário, Despido de qualquer medo: Vai ganhar o seu salário.
Casualmente (bendito Seja Deus!) o desgraçado Vê o olhar da onça fito De dentro de um tabuado.
Foge; muita gente acode Armada, e com laço e rede, A ver se apanhá-la pode; Ela, com fome e com sede,
Fere o pé a um bom valente, Mas é já laçada, e morre Á faca da demais gente, Que ali bravamente corre.
E porque não era grave A ferida recebida, Fechou-se com dura chave A história, e mais a ferida.
E disse alguém, que não erra Ocasião de uma vasa:
— “Que há mais natural na terra Que criar onças em casa?
“Quando muito, demos graças Aos deuses, que esta podia Matar duas ou três praças, E toda um inspetoria.
“Não há onças espanholas? Não há onças desgraçadas Estas não rugem nas solas Das botas acalcanhadas?
“Virá tempo em que não ande Pessoa que se respeite Sem uma onça já grande, Ou, pelo menos, de leite.
“Que toda a senhora fina, De passeio ou de passagem, Tenha uma onça menina Ao lado, na carruagem.
“Que algumas fujam, que trinquem O pé a qualquer pessoa, Ou por mal, ou porque brinquem Pode acontecer, é boa!
“Mas quem já viu neste mundo Progresso sem sacrifício? Sangue que corre é fecundo, E há virtude que foi vício.
“Cavalo que anda direito Já foi bravio e inquieto, Onça que morde um sujeito,
Talvez não lhe morda o neto.
“Vamos, pois, encomendemos Onças, muitas onçazinhas, E nos quintais as criemos, Como se criam galinhas”.
N.° 33
29 DE OUTUBRO DE 1887.
Voilà ce que l'on dit de moi Dans la “Gazette de Hollande”.
Alá! por Alá! Cá tenho Inda nos tristes ouvidos O som duro, o som ferrenho, Destes termos desabridos:
“Os liberais padecemos Como os cristãos da Bulgária Padecem duros extremos Da turca espada nefária”.
E porque tenho uma veia Com sangue de Mafamede, Cousa que não acho feia, Que não desdoura, nem fede;
Juro que andei azoinado Com o dito do estadista, Azoinado e envergonhado, Sem voz, sem sabor, sem vista.
Mas (Alá é grande!) agora, Agora, neste momento, Chegam notícias de fora, Da Bulgária e de espavento...
Vejo que o governo novo Daquele povo inquieto, Para aquietar o povo, Achou um meio discreto.
Convidou madre Censura Para rever os diários, Enterrando a unha dura Por modos crespos e vários,
Nos trechos em que apareça Opinião tão à toa, Que em tudo, se mostre avessa
Ao que ela entender que é boa.
Assim podem os censores Riscando uma parte ou tudo, Fazer dos espinhos flores, Fazer do rudo veludo.
É pouco. Um dos jornalistas Tantas fez que foi pegado, E teve, de mãos artistas, Não pouco, nem moderado,
Castigo de tal volume Que era de ver... Cem açoites! Quase lhe levam o lume, Quase lhe dão boas noites.
E disseram-lhe ao soltá-lo. Que se voltasse à escritura, Haviam de castigá-lo, De outra forma inda mais dura.
Ora, o que me espanta nisto É que a gente que maltrata Os pobres filhos de Cristo São cristãos de pura nata.
Lá que impeçam tais diários, Acho até bom, não somente Nos dias incendiários, Mas nos de vida corrente.
Nunca veio mal de um mudo, E imprimir o que se pensa, Tudo, tudo, ou quase tudo, É desastre, não imprensa.
Assim, acho grão perigo Que, em obséquio ao Ramalho Ortigão, meu grande amigo, Honra do engenho e trabalho,
Desse a Gazeta, uma festa, De autores e jornalistas, Cerrada e longa floresta De opiniões e de vistas.
Conservadores sentados, Em frente a republicanos, E liberais afamados Ao lado de ultramontanos.
Gente ruim, gente feia,
Merecia nessa noite, Não festa, porém, cadeia, Não Borgonha, mas açoite.
País de tal liberdade E tolerância tamanha, Vai com toda a alacridade Ao lodo, ao delírio, à sanha.
Olhemos para a Bulgária; Arruma, cristão amigo, Simples pancada ordinária, Cem açoites por artigo.
N.° 34

Machado de Assis 
Machado de Assis



Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

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Machado de Assis

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